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segunda-feira, abril 04, 2005

Marina teve um outro caso. Começou assim:
- Agora tu vai ter tempo pra sair comigo?
- Como tu sabe?
- Conheço dessas. Tu não ia passar dois dias sozinha na casa de campo a toa.
Ela engoliu em seco e ele sabia que foi um golpe de mestre. O oportunista em questão era Daniel, um caso antigo que volta e meia retorna. Entretanto, por algum resto de escrúpulo, Marina não insinuou a Fernando que estava saindo com outro cara. Nada falou sobre Daniel, mesmo sabendo que ambos se odiavam. Foi uma pena, pois assim ela perdeu a única coisa divertida da recaída. A festa foi horrível, o sexo pior ainda, no almoço dois dias depois ela só falou sobre coisas chatas do trabalho. Ela sentiu que precisava mudar de ares, mas não sabia como.

Também não soube como surgiu na sua vida, por alguns tórridos meses, aquele guri de dezessete anos. Parece que era um primo de uma amiga sua a quem conheceu no carnaval do ano passado e ao mesmo tempo enteado do seu ex-chefe. Fato é que numa festa de aniversário chata até os tubos todo mundo foi dançar Trem da Alegria no meio do salão enquanto ela foi sair para comer, ele foi junto. Começaram a conversar: ela com a desconfiança natural de uma mulher convivendo entre mulheres e homens no seu meio adulto de ser; ele querendo ser adulto e não sabendo como. Todavia, o danado tinha um talento louvável para falar de relacionamentos. Algumas frases dele sobre Fernando ela entendeu perfeitamente, como se precisasse mesmo ouvir aquilo de alguém. Realmente precisava, afinal no meio adulto de ser tudo passa muito rápido, não há tempo para divagações sobre amores que não têm conclusões. Claro que precisava de algum fator que os ligasse de vez, quem fez esse papel no momento foi a música: ele espertamente ficou de levar um CD com gravações raras da Elis Regina para ela mas precisava do celular para saber quando levar e onde.

O celular de Marina ficou no topo da lista de chamadas discadas do guri (que aliás chama-se Daniel também, porém após uma semana ela preferiu chamá-lo apenas de Dani) por uma semana e meia, tempo suficiente para uma intimidade relevante e algumas conversas picantes depois da meia noite, com ela apenas de lingerie no quarto. Mesmo conversando quase todos os dias, só combinaram a devolução do CD num sábado, antes de um filme no cinema. Eles juram que não tinham combinado assistir um filme: na hora em que se encontraram, decidiram ver o mesmo filme, pretexto para mãos juntas e um beijo com mais de uma hora de filme passado: essa característica de adolescente ele ainda tinha, a falta de percepção do timing.

Porém, não o resto. Beijava como adulto: nem uma gota de saliva a mais, nenhuma língua fora do lugar, todos os movimentos das mãos em sincronia com a intensidade da boca. Sabia como tocar, quais os pontos, não sabia porém a técnica talvez por falta de prática com outras mulheres. Obedecia perfeitamente, sem furores de vaidade, como obrigar a mão dela a passar no colar de prata novo ou na tatuagem recém-feita. Até porque era jovem demais para uma tatuagem. Marina tinha o problema sério de todo amante de pensar bem antes de executar qualquer movimento: não foi assim com ele. A sensação única de comandar lhe deu sede de poder sobre o corpo do guri, uma sede inesgotável que não quis terminar na meia dúzia de beijos depois do cinema. Quis então levá-lo para jantar, assistir o pôr-do-sol, buscá-lo de carro na academia até o dia em que o pai viúvo de Marina passava na casa da amante, quando levou-o para sua própria cama. Desnecessário relatar o delírio pelo qual Dani passava naqueles dias, ou o perigo despudorado de levar um menino para a cama onde ela dormia todos os dias. Basta pensar que Dani contou tudo o que aconteceu, com riqueza de detalhes, para seus amigos mais próximos e outros nem tanto assim, como se relatasse um fenômeno único da natureza.

Os laços de Marina e Dani estavam ficando mais fortes e mais preocupantes, para os que viviam em volta dos dois. O pai dela, como sempre, ficou sabendo de tudo mas não se manifestou a respeito, embora olhasse com desconfiança o fortalecimento repentino da sua relação com o primo da Natália, que um dia foi sua empregada. As amigas de Marina passavam do repúdio completo ao desprezo contínuo aos poucos, excetuando Laura, que não apenas entendia como apoiava a situação. Os amigos mais novos de Dani estavam tão deslumbrados quanto ele; os mais velhos chamavam a atenção para a possibilidade de dor e decepção num futuro próximo. Os pais nem desconfiavam.


luís felipe posted at 01:05

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