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sábado, fevereiro 14, 2004

atualizarei essa coisa só dia 26 agora.

fiquem com um texto meu, do ano passado. Abraços.

DEU NO JORNAL:
O nobre engenheiro Pedro Tedesco Silber foi considerado pela comissão estadual de engenharia o Engenheiro do Ano. O prêmio será entregue hoje, às 21h, no Salão de Atos da PUCRS.

Não quero armas, nem amigos. Não quero que amanhã me digam que eu segui alguma tendência maligna que faça todo o meu trabalho de anos ruir em segundos, décimos ou centésimos ou milésimos de. Chega de jogar tudo fora: agora serei feliz. Bêbado, mas feliz. Nos últimos 16 anos não quis almejar a felicidade. Desisti do violão, minha carreira promissora como piloto da Aeronáutica foi abortada por alguns testes malfadados sobre pressão e continentalidade. Decidi então deixar de ser feliz, me atirei nos livros de matemática e decidi que se não ia ser aviador, pelo menos construiria prédios que me levassem ao céu, e lindos o suficiente para fazer chorar aqueles que queriam vê-los bombardeados nesse país sem sombra de guerra. Casei, tive filhos, tomei porres gigantescos, fui em festas da high-society. Enfim, se não pude viver, passei a ser para me tratarem como ser. E agora a minha fase de ser chegou no seu ápice – com esse prêmio, deixarei de joelhos as empreiteiras. Os abutres que diziam que eu jamais seria nada por ter nascido um nada agora me tratarão como tudo. Meus professores, esses sim, terei prazer em deixa-los com inveja por toda a eternidade – todos eles são malditos seres eternamente frustrados quando não formam idiotas tão frustrados como eles. Eles adoram os concursos para tribunais e repartições públicas, pois sabem que ali estão milhares de possíveis médicos, promissores jornalistas, ávidos pesquisadores, que por algum fator de derrota acabam por subjugar seus sonhos. Esse fator de derrota é a vida desses professores. Ao menos deles. Um dia posso ser um também.
Mas, voltando ao assunto, serei feliz. Descobrirei que a felicidade é a de Deus, sim, mas com Lúcifer no meio. Uma pimenta, uma mancha no branco dos véus. Os filósofos dirão que isso é uma grande bobagem, uma pieguice extrema; os religiosos me ridicularizarão como pagão e ignorante. Não me importa se Shakespeare ou Homero ou Gilgamesh dizem isso desde o princípio da humanidade, direi de novo, pois sou um sugador, portanto humano: a vida sem a morte não é e nunca foi vida. Tem de existir a antítese para tudo ficar legal. Para ter graça. A Igreja Católica só é a Igreja Católica porque inventou o inferno. Eles nunca foram os enviados de Deus; eles são os criadores do inferno, uma obra ainda maior, pois ninguém ainda conseguiu construir tal antítese de Deus. Alguém por essa parte pode estar achando que vou chegar na tribuna amanhã e dizer “muito obrigado, mas recuso esse prêmio. Esse prêmio é para vocês, malditos abutres, que amanhã farão caveira de mim nos simpósios, que só pensam em vocês e nos interesses de vocês para dar esses prêmios que nada mais são do que instrumentos de marketing. Vocês querem é vender cimento às minhas custas. Aqui pra vocês, BANDIDOS!” Eu poderia dizer isso. Ia ser legal.
Mas não vou. Não vou porque além de ser piegas, é heroísmo. Os garotos da faculdade de Engenharia iam ficar meus fãs, eu ia dar entrevistas e aliciadores de menores iam manter suas posições às minhas custas. Na verdade, é um círculo vicioso – o bendito vai para um lado e tem tais objetivos, mas o maldito, ainda que de objetivos opostos, vai para o mesmo lado. Só que de formas diferentes. A vida é cheia de lados, portanto não cometerei o maniqueísmo de dizer sim ou não. Não direi nada disso. Não direi? Poderia não dizer. Mas ao não dizer estaria dizendo não, e meu objetivo é não responder. É deixar a dúvida, a subjetividade, o mote de tudo e ao mesmo tempo tão comum que torna-se nada. Agora descobri onde está Deus. É na subjetividade, onipresente em todos os homens e onipotente sobre eles. Deus é subjetivo, Ele não é ou está. Ele nem pode ser chamado de Ele, nem de ele. Porque esse pronome remete a um sujeito, que não existe. Deus está no meio de todas as palavras que fazem o bem, e a antítese está nas palavras que representam o mal. Deus é Deus por que tem a maior das antíteses. Senão seria Baco, Júpiter, Atena.
Então não direi sim nem não, mas ao mesmo tempo alguma coisa será dita. Nessa parte me lembro dos cogumelos. Porquê? Ora, os cogumelos são fungos, não tem raiz nem folha nem caule. Eles simplesmente existem e se reproduzem, como princípios básicos. Eles não tem início nem fim, são sim um apanhado de hifas – que nem vasculares são – dentro de um corpo com algumas células ordenadas com forma de bomba H. Já a pitangueira tem início, meio e fim, todo mundo sabe onde começa, por onde nasce, como termina, se reproduz. Entretanto, um chá de pitangueira alucina? E o de cogumelo? Porque o chá de cogumelo alucina? Eu tenho uma explicação: porque como eles não tem nada de onde tirar nada, não tem seiva ou tubérculo ou vasos do caule, nada por onde alguma coisa flua por algum motivo e com algum sentido. A energia flui assim, enlouquecidamente, dispersa, vaga, pois o sentido é um só, o de viver. Isso permite e incentiva a criatividade dos fluidos, que quando imersos e reproduzidos em água fervente, ou matam – despreparo dos axônios para admitir tal nível de sabedoria? – ou alucinam, fazendo a pessoa não saber o que está vendo. Quem sabe não é isso que falta à humanidade, que haja somente um objetivo e um sentido? Assim a imaginação pode fluir como flui a imaginação dos íons, elétrons, prótons, nêutrons, átomos, moléculas, e tudo isso na física que nada constitui senão o que já sabemos pelo lado de fora (se um sonho de horas dura 15 segundos, porque distãncias de anos-luz não podem ser na verdade nanômetros?) mas somos ignorantes e pretensiosos demais para descobrir pelo mínimo.
Portanto, meu texto será como um cogumelo. Direi uma frase, e partindo daí farei todo o meu discurso. A frase é a seguinte:

“ Se das menores coisas faz-se o mundo e nós mesmos, amaremos o próximo como a nós mesmos na mesma proporção em que damos valor às coisas simples.”

(Longa pausa. Ele toma um café e vai tocar algumas notas no violão. Sai uma música híbrida, mas de grande beleza e magnitude. Algo quase celestial.)

E se não for o fim? (Ele muda o tom do violão e passa a cantar. Um amigo seu chega e canta um pouco também, tocando notas com uma gaita de boca. Os dois conversam por longos instantes, e saem. Depois ele volta, mas o amigo também, para buscar a capa de chuva. Desta vez a despedida é rápida.)

(Ele toca até acabar o barulho incessante do temporal. Então pára.)





luís felipe posted at 03:42


sexta-feira, fevereiro 13, 2004

Sim, vai ter greNal domingo, 19h, pra pegar a galera que está voltando da praia. Tenho o leve pressentimento que vai dar um daqueles empates bem modorrentos, um 0x0 que não empolgará ninguém. Não sei de onde vem essa idéia, talvez do fato que os dois times não estão montados e terão muitas estréias, não há um "espírito" de clássico no ar.

Do lado tricolor estrearão o macaco Tavarelli, que certamente será uma surpresa para todos - existe muita empolgação em torno dele, principalmente dos que acham que são castelhanos, pelo menos até acharem alguém que saiba aproveitar os seus inúmeros rebotes - o volante Coicito (não pensem que é por causa do Kaká, ele bate pra caramba mesmo) e o excelente meia-atacante Rico terá sua prova de fogo.

Do lado colorado acho que Diego estará de volta. O lento Fernando Miguel não resistirá muito tempo até ser substituído por Edinho ou Labarthe (eu sinceramente não entendo porque contrataram um jogador com as mesmas características do Sangaletti), Oséas entrará no segundo tempo e tem tudo pra animar a festa, dos mais jovens tenho medo do Tiago Saletti (parece meio afobado) e do Wellington (Cleiton Xavier parte 2). Se Cidimar jogar, não fará muita coisa.

São as minhas previsões. Agora de concreto...deu pra perceber essa semana que Saul Berdichevski é uma verdadeira MALA sem alça. Ele simplesmente aproveitou todas as palavras saídas do Beira-Rio pra provocações, banalizando o método de tal forma que nem a Zero Hora aguentou, ignorando-o solenemente na edição de hoje, onde o Correio do Povo noticiou a sua frase "Rico é melhor que Nilmar". Se o Inter ganhar, muita coisa há por ser dita, bem como muitas frases o Lori poderá usar no vestiário. Ainda assim, a sua maior asneira não foi com relação ao futebol, e sim a respeito do horário da partida, 19h. "GreNal tem de ser com Sol, alegria, calor..." claro, pois ele vai assistir de camarote, não vai ter de ficar numa arquibancada de concreto como outras 30 mil pessoas.

Enfim, vai ter GreNal, não estarei presente desta vez, é uma pena. Vou ter de adiar meu ingresso nos Diabos Vermelhos para março, e vai ser complicado pois sou sócio e não posso mais ir de arquibancada. Vamos ver. Sobre futebol era isso.



luís felipe posted at 00:34


Se tu entende inglês e quer ver como deve ser um blog (na concepção deles, óbvio), olhe essa matéria do guardian unlimited. Um dia espero que meu blog seja assim.

Destaque para o belle de jour, um blog com um template muito tosco que foi relacionado entre os diários melhores escritos. Ela realmente escreve bem, mas não é nada assombroso. Acho que o Galera é melhor.

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Algum dos leitores já foi pro planeta atlântida? Eu nunca fui, mas vejo que é o festival mais idealizado do mundo. A RBS, Globo, Zero Hora, sempre dizem que foi tudo perfeito, nenhum acidente ocorreu, ninguém foi assaltado, não faltou ingresso, tudo na mais santa paz. Os outros veículos de imprensa simplesmente ignoram a existência de um festival de 60 mil pessoas. É preciso sempre perguntar pra alguém como é pra saber, pois a mídia simplesmente não diz, esse é o exemplo mais claro de manipulação do sul do país.

Talvez um dia eu irei. Quando queria mesmo ir, entre 98, 99, tava veraneando em Santa Catarina e os shows do planeta de SC eram todos uma bosta, teve uma edição em que tocaram Maurício Mainieri e Claudinho e Buchecha, nojento. Depois perdi a vontade, comecei a achar banal, nem ouvi mais a atlântida. Desta vez até tive vontade de ir, mas por motivos que todos conhecem nem insisti muito no assunto. Ano que vem talvez. A menos que eu continue achando a 94.1 uma rádio nojenta.


luís felipe posted at 00:12


quinta-feira, fevereiro 12, 2004

os pouco criativos certamente dirão que é uma cópia do template da cecília e da clau, que você pode conferir logo ao lado.

mas a verdade é que está mudada a coisa, espero que estejam solucionados agora os tais problemas da quebra de linha.

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acho que vou pra praia esse fim de semana. Minha mãe está precisando de férias. As coisas estão melhores aqui em casa do que estavam ontem, quando parecia que uma neblina forte tinha descido por aqui. Estamos tentando seguir em frente, há algumas coisas burocráticas a serem providenciadas, já disse pra mãe que vou ajudá-la no que for preciso.

muitas pessoas estiveram presentes no funeral, umas 80 pessoas parece. Muita gente da Sociedade Espírita foi, fizemos uma prece logo antes. Os doutores Isaac e Elias, que tanto nos ajudaram, também estiveram lá, o dr. Isaac sempre muito prestativo, dizendo que ia nos ajudar no que fosse preciso. Ele de fato confia na gente. Era uma das poucas pessoas que eu não conhecia na ocasião.

É cruel, eu sei que é cruel, mas foi um momento de dor e também de glória. Meu pai faleceu como um lutador, um guerreiro, e posso dizer com todas as letras que venceu. Tenho muito orgulho dele, que jamais se abateu em dois anos e meio de luta contra o câncer, sempre soube que de nada adiantava se lamentar, nunca negou o tratamento, nem o apoio das pessoas queridas. Ele foi um exemplo de vida para todos nós, cara, como eu gostaria que as pessoas que lêem esse blog, a maior parte da faculdade, conhecessem ele. Antes do estado dele chegar na parte crítica, tu jamais pensaria que ele estava doente. Os próprios médicos diziam que ele estava melhor que eles, tamanha a jovialidade e a presença de espírito.

Só que um dia teria de acontecer, infelizmente foi terça-feira. Eu chorei, claro, e fiquei muito mal, muito triste quando soube que ele partiu. E ainda sentirei meus lábios apertarem e certamente mais lágrimas correrão. Mas eu sei, e toda minha família sabe, que ele foi descansar, que será curado e que ele foi um VENCEDOR. Saiu da mais absoluta pobreza, filho de mãe solteira, teve que começar a sustentar a família com treze anos de idade, carregando caixas na Voluntários da Pátria. Deu uma vida decente pro irmão, jogou futebol, chegou a gerente de banco, casou com minha mãe. Teve o meu irmão, Paulo, há 31 anos, depois sucedeu uma série de dificuldades, dívidas, recessões, vícios. Ainda assim criou ele e o André, filho da dona Rosa, que tinha problemas em criá-lo, se juntou à nossa família e virou meu segundo irmão. Seis anos depois veio a Luiza, mais seis anos e eu apareci, depois a nossa casa foi construída, com dinheiro dele e idéias da minha mãe. Hoje, nesse terreno, moram mais nove pessoas, minha mãe, todos os meus irmãos, mais as cunhadas dos meus irmãos e as três sobrinhas, Júlia, Gabriela e Laura.

Ele saiu do nada, da miséria, da necessidade total, da situação em que muitos proclamam que tem de ser feito aborto, criou uma família e ganhou a estima não só das oitenta pessoas que estiveram na sua despedida do mundo corpóreo, como de centenas de outras pessoas que passaram na sua vida deixando marcas, lembranças, boas memórias.

Eu tenho muito orgulho de ter tido um pai assim. Não preciso de herança, pensão, não preciso de nada material pra dizer isso. Seria muito egoísmo de minha parte dizer que ele deveria ficar comigo até o fim da minha vida. Eu gostaria, mas sei que ele será curado no plano maior, e em breve o encontrarei. Tenhamos o devido respeito com esse homem. Ele foi iluminado. Digo esse muito obrigado de todo o coração.

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puxa, o texto era pra ser pequeno, só pra inaugurar o novo template, mas me emocionei digitando. Quem quiser, leia. Mesmo sendo pouco pra dizer tudo que sinto.


luís felipe posted at 05:17


João sempre quis ter uma bateria, para acompanhar seu amigo Fernando nas noites regadas a rock’n roll de garagem e muita vodka na casa dele em Humaitá. Só que como João não tocava e a vodka não era muita, Fernando ia com seus amigos da banda e depois contava como eram as noites. Contou que uma vez eles começaram a tocar Stones quando ouviram uns gritinhos na casa do lado. Eram duas gurias numa piscina, quase de madrugada, dançando e tirando a roupa pra mergulhar. As moças estavam bêbadas. Cogitaram em convidar os quatro rapazes que tocavam bateria, baixo, guitarra base e solo na garagem do lado. Os quatro se excitaram com a possibilidade de fazerem uma festa com suas primeiras groupies, mas depois se apavoraram e ficaram só olhando. Até que uma delas chamou e eles pularam o muro. Só que as gurias não sabiam beber e passaram a noite inteira rindo de nada e vomitando muito, sendo que ao final todos levaram as moças carregadas pra cama com baldes do lado. É claro que João não precisava saber disso, e Fernando deixou implícito que comeu as duas gurias. Assim, João remoeu o ciúme nas unhas e amaldiçoou a mãe por ter dinheiro pra trocar de carro e não pra lhe dar uma bateria.

Até que no inverno a mãe resolver dar um presente de aniversário decente pro moço, pois depois de anos de aperto tinha sobrado uma boa grana e chegado a herança da tia de Canguçu. João ganharia uma carteira de motorista e caso passasse de primeira na auto-escola teria o direito de usar o Palio Fire da mãe três vezes por mês. Se ele passasse na UFRGS no final do ano e a irmã mais velha também, ela poderia dar um carro de presente pros dois. Mas por enquanto, só a auto-escola. Fernando ia com ele nos dias das aulas e dava aquele incentivo, falava sobre virar a noite na Lima e Silva, pedir a Taís em namoro, quem sabe até levá-la pro motel, sem esquecer de dar uma carona pro amigão e pra sua ficante Mariana, é claro. João passou nos testes sem perder um ponto, levou a carteira direto, pra orgulho dos pais e euforia dos amigos. Juliano, o irmão mais novo, ficou enciumado e correu pra casa da avó, que lhe deu uma bicicleta de presente. Como a banda do Fernando não fazia mais do que um show por mês nos cantos obscuros da Cidade Baixa, João tornou-se o motorista da banda. Se não sabia tocar, pelo menos era o holding bem arrumado que tinha um Palio Fire vermelho e conhecia de perto todos os “gatinhos” da banda.

Passado um mês, pediu a Taís em namoro e levou-a pro motel Antares, onde descobriu que ela era virgem e tinha nojo de sexo oral. A guria se apaixonou, escrevia cartinhas de amor, contava pras amigas como foi a primeira vez, mas de certa forma João achava que podia mais. Depois daquela primeira vez suada e fria na praia, a segunda vez tinha sido boa demais para aproveitar só com a Taís. Então, começou a sair mais com a banda, cheia de solteiros, onde vasculhava o Guanabara, Cabaret, La Bodeguita. Se apavorou quando encontrou a primeira guria de mais de vinte, Amanda, dona de sorriso e quadris espetaculares. Decepcionou-se quando o verbo que terminava o conjunto ficar-transar não era ligar no dia seguinte, e sim esquecer, fingir que nada aconteceu.

Chorou, fumou, bebeu a ponto de sair carregado do Cotiporã, comprometeu os estudos e começou a escrever. Suas letras começaram a ser aproveitadas na banda, que deixou o rock alegre de AC/DC e Stones pra chegar no masoquista de Smiths, Radiohead, Joy Division. Lágrimas do Asfalto, sua primeira música, tinha um refrão de pouca rima e acabou não rendendo mais do que três ensaios e um show. Mesma coisa com Louco Amor, tão ruim que o dono do bar sugeriu que cantassem em inglês pra parecer mais “bonito”. Dezembro já tinha chegado, o curso de revisão no Unificado não rendia muita coisa, a irmã já dizia que ele tinha de trabalhar pra não ficar sem fazer nada no ano seguinte. Até que a Amanda ligou. Disse que tinha visto o show da banda dos amigos na quinta-feira e queria saber se aquela música Fora de Controle era pra ela. Marcou um encontro na Lancheria do Parque, onde disse ter sido injusta, que não queria ser um peso na vida dele e que ele deveria ligar depois do vestibular. Ficou claro pra João que ela queria um rapaz de faculdade, não um adolescente que chorava depois de uma foda. Ele se dedicou muito aos estudos nos últimos quinze dias, até terminou de ler A Rosa do Povo. Fez as provas com o coração na boca, ficou com ela na sexta-feira seguinte, depois viu o listão e soube que tinha ficado de primeiro suplente, passaram 50, ele era o 51º. A irmã passou em 14º em Publicidade, primeiro semestre, alegria geral na casa. Os pais garantiam que o carro sairia, mas lá por abril, quando acabavam as prestações do Palio. Amanda transou com ele mais uma vez, na sua casa, aproveitando que os pais saíram pra comemorar o aniversário de casamento. João se via extasiado, parecia ter garantido tudo o que queria em poucos dias, namorada, carro, a faculdade só dependia da desistência de um, certamente um riquinho que ia preferir estudar na PUC. Tudo parecia bem.

Menos a banda. Edu, o baixista, bebia demais e às vezes nem chegava aos ensaios. Quando chegava em casa, não saía do quarto, a mãe chorava pela ausência do pai, que estava no Rio tratando de negócios provavelmente acompanhado da amante, a irmã mais nova saía quase todos os dias com as amigas e brigava na rua quando chamavam ela de prostituta. Num dia de show, o rapaz teve que ser tirado de casa às seis da tarde, quase em estado de coma alcoólico. Ao lado da cama, duas garrafas de Walesa vazias, alguns limões e uma forma de gelo, metade derretido. Depois dessa foi internado, passando o resto dos seus dezenove anos numa clínica de intoxicação, com o tratamento quase interrompido por uma denúncia de porte de drogas. A situação de Edu abalou a banda, pois ainda que o baixo não fosse tão importante, as músicas depressivas que tocavam faziam lembrar da situação, o próprio Fernando, que era guitarra solo e vocal, parou um dos shows pra chorar no camarim.

Numa noite, saindo de um desses shows, Ricardo, o baterista, pegou o Palio Fire pra dirigir. Todos estavam bêbados. Eles tinham de ir pra zona norte, então Rick, como era chamado, pegou a Castelo Branco em altíssima velocidade. A 120 por hora, com João, Fernando, Amanda e o guitarrista base Vítor na carona. A polícia viu a velocidade do bólido e tocou a sirene. Rick, com três doses de uísque e (detectado posteriormente em exames) 50g de cocaína na cabeça, apavorou-se e jogou o carro no canteiro, onde caiu. Completamente alucinado, acelerou até sair do canteiro para a pista de contramão. Acelerou estupidamente, até encontrar a frente um Corsa Sedan vindo da praia com uma família, duas crianças atrás. Perda total dos dois carros. O caroneiro Vítor lançado a 20 metros de distância, morto após quebrar a cabeça no vidro, sem o cinto de segurança. João preso nas ferragens. Amanda com uma barra de ferro lhe trespassando o braço esquerdo, tal como a perna de Fernando. Rick e os dois da frente do Corsa, marido e mulher, morreriam no hospital. Melhor nem dizer o que houve com as crianças.

Somente cinco anos depois do ocorrido João voltou a um hospital, para visitar o seu filho Eduardo, nascido após uma cesária no ventre de Amanda. Ainda não tinham casado, mas já moravam juntos, num apartamento de três peças no Bom Fim, que Amanda alugou depois de dois anos de emprego fixo como dentista no hospital Mãe de Deus. João encaminhava a conclusão do curso de arquitetura, tinha parado no ano anterior pra trabalhar. Fernando, que manca até hoje por causa do acidente, foi pra Curitiba com uma dessas novas bandas de rock que estoura nas rádios, ganha muito bem, tanto que parou de estudar, pra desespero do pai. Preferem morar perto dos lugares onde trabalham, bem como só vão pro litoral de ônibus. João visita sempre Edu, que decidiu parar de tentar a morte depois da tragédia ocorrida com os amigos, pois sabe que ela chegaria mesmo se continuasse procurando. A mãe de João decidiu dar de presente para Juliano, o filho mais novo, que recém completara 18 anos, uma presente diferente, apesar da insistência dele em ter um carro bacana, com vidros pretos e rodas rebaixadas, pra se mostrar pras gurias. Convenceram-no do contrário. Não poderiam saber se Juliano não repetiria a história de João, oferecendo sua vida ao beijo da morte. Chega de apressar as coisas. Porque não uma bateria?


luís felipe posted at 02:00


quarta-feira, fevereiro 11, 2004

"Some day you will find me
Caught beneath the landslide
In a champagne supernova in the sky..."
- Oasis

Depois, com mais calma, retornarei o assunto do desencarne do meu pai. Por enquanto apenas agradeço profundamente e de coração os comentários que meus amigos Emily e Renan postaram logo abaixo. Ísis, Júlia, Luiz, Mauricius, também agradeço muito a vocês, por me darem apoio. Caminhemos juntos.



luís felipe posted at 03:13


terça-feira, fevereiro 10, 2004

não sei se é falta de sensibilidade ou um exercício de sadismo talvez, o fato é que me sinto na obrigação de dizer aos leitores desta página que um grande homem faleceu esta noite e que minha casa, bem como meu coração, nunca mais ficarão completos.


luís felipe posted at 02:48


segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Hoje passei a manhã no hospital. Não queiram saber como está meu pai.
Eu certamente não gostaria de ler.

Depois fui pra Redenção terminar finalmente a leitura d'O Jogador (acho que menti pra alguém que já havia lido, o fato é que estava na metade) . Isso durou um bom tempo, não lembro a que horas fui pra lá, era cedo, foi depois de comer o cachorro quente do Rosário (que aliás seria ótimo se não fossem as abelhas em volta).

Encontrei a Julia lá, mas não tava muito a fim de conversar. Vim pra casa, minha mãe saiu, comprei comida e vi o que aconteceu no futebol. Christian fez três gols num time fraco. América ganhou do Flamengo. Roma destroçou a Juventus em casa, 4x0 bem aplicados.

Depois por um desses lances do acaso (que não existe) achei um documentário sobre o álbum Electric Ladyland, do Jimi Hendrix, no GNT. Que programa! O Noel Redding (outro grande guitarrista) disse que ia pro estúdio gravar às seis da tarde e o Jimi só chegava às três da manhã, com um monte de gente no estúdio, pra gravar. Gypsy Eyes, a faixa 8 do disco, teve cerca de 45 passagens de som (!) pro solo, sendo que House of the Rising Sun, por exemplo, só teve uma. Na 46ª, o produtor desistiu das gravações. Ài ocorreu a transição das faixas de 4 minutos e meio que a gravadora exigia para as insanidades de 10, 15 minutos que Hendrix queria. 1983...(A Merman I Should Turn To Be) são treze minutos de pura magia.

Além da super clássica All Along the Watch Tower, carro chefe do disco, tem uma música que vocês devem procurar no Kazaa, que é Crosstown Traffic. Essa é uma baita música. Um dos efeitos, que parece de guitarra quando os backing vocals cantam o nome da canção, é feito por Jimi com um papel celofane e um pente, cujo som é semelhante a um instrumento indígena chamado kazoo. Jimi tocou baixo, guitarra base, guitarra solo e kazoo nesse álbum. E sempre tocando bem, isso que é incrível.

a letra da música é essa:
You jump in front of my car when you,
You know all the time that
Ninty miles an hour, girl, is the speed I drive
You tell me it’s alright, you don’t mind a little pain
You say you just want me to take you for a ride

You’re just like crosstown traffic
So hard to get through to you
Crosstown traffic
I don’t need to run over you
Crosstown traffic
All you do is slow me down
And I’m tryin’ to get on the other side of town

I’m not the only soul who’s accused of hit and run
Tire tracks all across your back
I can see you had your fun
But darlin’ can’t you see my signals turn from green to red
And with you I can see a traffic jam straight up ahead

You’re just like crosstown traffic
So hard to get through to you
Crosstown traffic
I don’t need to run over you
Crosstown traffic
All you do is slow me down
And I got better things on the other side of town

:::

Jimi Hendrix é um dos maiores músicos da história. Talvez o maior do século XX. Genial na arte de fazer solos de guitarra, tão menosprezada pelos infiéis.


luís felipe posted at 02:13

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