sábado, fevereiro 07, 2004
Abre. Eu sei que tu tá aí. Pelo menos abra uma fresta da janela, ou espie pelo buraco da tua veneziana quebrada. Vem. Abre a porta, pega o teu jornal na minha mão, olha na minha cara pelo menos uma vez. Tu pensa que o mundo chega na porta da tua casa sozinho? Ele não chega sozinho. Sempre existe um Atlas pra carregá-lo nas costas enquanto os deuses se divertem.
Eu sei onde fica tua casa. Sei teu endereço e posso descobrir teu telefone. Sei que no sábado tu chega às cinco da manhã do baile, eu sei porque te vi e quase te atropelei quando tu trocava as pernas na esquina da rua, podre de bêbado. Já nos cruzamos na rua algumas vezes, eu não te reconheci, nem tu deve ter me reconhecido. Eu só sei que era tu porque tu ia rumo à mesma casa em que passo todos os dias pontualmente às 4:58. Tu tem anões de jardim e cactos na frente de casa. O teu cachorro beagle me odiava, depois se acostumou comigo. Eu sou uma espécie de companhia pra ele, que dorme na grama do jardim quando tá quente, pelo menos pra ver as pessoas passando na rua e não se sentir tão sozinho. Talvez eu só goste da tua casa porque sei que teu beagle tá lá e não vai me fazer sozinho naqueles 30 segundos em que eu jogo o jornal e ele levanta os olhos. Às vezes até late.
Mas hoje tu tá em casa, eu sei. A luz tá acesa. Tu deve ter chegado tarde ou ter ficado sem dormir. Ouço o barulho da TV, ligada, a melodia da vinheta do Corujão. Tu tá acordado, eu sei. Faço barulho na moto, mas não jogo o pacote porque sei que tu tá aí. Queria te ver pelo menos uma vez direito. Poder olhar nos teus olhos e dizer "Tá aqui o jornal, faça bom proveito", que nem aquelas pessoas legais que operam caixa e trabalham em shoppings. Sei que nunca vou chegar nesse ponto. Estou fadado a jogar esse pacote frio no chão e não falar com ninguém senão com a névoa. Talvez tu nem estejas vivo. Pode ter tido um enfarte quando foi no banheiro de madrugada e o anjo que te levou esqueceu de apagar a luz.
Mas não faz diferença, continuarei jogando esse pacote frio no chão. Ele vai acumular, vão ser vários papéis, a conta do jornal não será paga e aí tirarão a tua casa da minha lista. Como um número qualquer. Ao invés de parar no 245, vou do 228 até o 271, isso não me custará dois segundos ou dois metros de caminhada. Mas não vou conseguir passar pro 271 enquanto continuar vendo essa luz acesa. Eu sei que tu tá aí. Não custa nada, abre e pega o jornal nas minhas mãos, como se faz numa relação entre pessoas decentes. Por favor. Não precisa nem passar a chave, tu sempre esquece a porta aberta. Por favor. Se não é por mim, que seja pelo teu cachorro que tá com fome. Por favor, por favor, por favor...
Não adianta. Já perdi dois minutos aqui. São cinco horas em ponto agora, toma o teu jornal, vou jogar o pacote frio bem do lado do cachorro pra que pelo menos ele possa ver as figuras e se sentir mais feliz. Tu nunca vai olhar na minha cara. Nunca vai me reconhecer na rua. Nunca vai ouvir "obrigado e agradecemos a preferência" de um reles e infeliz jornaleiro. Agora entendi porque as notícias deixam tanta gente de mau humor.
luís felipe posted at 05:12
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
As notas do Seben não saíram.
mas tirei A em Teoria.
luís felipe posted at 18:45
deu um problema estranho de clonagem de posts aí, não sei porque
luís felipe posted at 03:31
pergunta de questionário essa, mas eu sempre tive curiosidade.
porque não pode ser qualquer filme, tem de ser um filme muito bom, e ao mesmo tempo tem que agradar visualmente, porque o pôster vai estar no quarto...
tenho três, que venho pensando há tempos
Caráter - melhor filme não-americano que já vi, o último grande filme noir da história.
O Poderoso Chefão II - essa trilogia é algo fantástico, eu e meu pai sempre paramos pra ver quando está passando em algum Telecine. E olha que já vimos dezenas de vezes, ele já deve ter visto milhares. O segundo filme é o melhor, pois tem o Robert De Niro como Vito Corleone, o único papel da história que levou dois oscares de melhor ator.
Pulp Fiction - esse é um superclássico, melhor trilha sonora já feita, pioneiro em vários sentidos, e do Tarantino, que por mais batido que seja é um baita diretor. Eu botaria o Jackie Brown também, mas o Pulp é melhor como pôster, até pra que as pessoas não achem que eu quero ser a Pam Grier.
Enfim, qual filme mereceria um pôster no teu quarto? comente.
luís felipe posted at 03:20
Fui ver Adeus Lênin hoje, é um filme bem razoável. Quando sair em vídeo vai ser o tipo de filme bom pra assistir com a namorada, um pote enorme de pipoca, guaraná e um sofá bem confortável num dia de inverno. E isso não é nenhuma crítica: é um filme que aborda o tema de uma forma leve, uma comédia dramática, um estilo alemão bem peculiar de tratar a história. E é um enredo interessante. Nota sete, pra mim.
Quando cheguei em casa senti um desejo de comer torradas de queijo. Só que deitei na cama e dormi até as nove e meia, quando sonhei que minha mãe me pedia pra pegar um pudim que estava em cima de uma meia na caixa de sapatos. Aí me vi obrigado a acordar. Só que não dava mais tempo de sair pra comprar queijo.
Minha irmã está aos poucos voltando a falar comigo, e hoje me pediu dois favores, o que é um bom sinal. Gosto dela, quero voltar a conversar com ela, desde que ela respeite o meu espaço. Parece que vai fazer isso daqui em diante. Ela está vendo que eu não dependo tanto dela como pensava.
Pela falta de queijo lanche pra torradas, comi uma massa com bacon e queijo ralado e fui ver Filadélfia. Que filme! Há muito queria ver de novo, tinha assistido com uns oito anos, não entendi quase nada. O Tom Hanks é fantástico, a interpretação de cara doente e angustiado dele é fantástica. E o Denzel Washington parece o tempo todo que vai fazer uma canalhice, mas ele é o Denzel Washington, não ia fazer nada demais. A cena em que o Hanks dança a música da Maria Callas é antológica.
Tenho uma idéia pra lançar, mas farei isso no post acima, antes queria deixar umas mensagens.
primeiro, minhas condolências pela morte da Hilda Hilst. Ela tinha um jeito bastardo de escrever com uma classe que a Lya Luft NUNCA vai conseguir ter, e comparo com a Lya Luft porque ela é considerada mais escritora ultimamente, vende mais, é gaúcha e tal. Mas a Hilda é realmente fascinante, os textos dela são pegajosos, tu não consegue largar. Faço esse registro até pela minha amiga Karine, que ficou muito triste com a morte dela...curioso como a arte toca as pessoas....enfim, que aquela dama descanse em paz.
segundo, desejo uma boa viagem a todas as pessoas que realmente vão pra praia nessas férias, aproveitem muito, em breve poderei compartilhar da areia e do mar (chocolate pra alguns, esmeralda pra outros) com vocês.
terceiro, pra quem entende de D&D, prestem atenção no blog "no reino de anubis" que um personagem antológico será criado em breve.
quarto, peço encarecidamente que vocês leiam o texto abaixo, do genial Antonin Artaud, e sempre pensem nele cada vez que forem discutir sobre a universidade.
quinto, estão em processo de adição (nossa) o blog Macho Solteiro, achado pela regina e recomendado pela júlia, e do Daniel Galera, um escritor gaúcho ex-fabicano, bem como do Allan Sieber, fantástico ilustrador.
E até a próxima chuva, pessoas!
(que tempo agradável esse)
luís felipe posted at 02:51
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
Carta aos Reitores das
Universidades Européias
Antonin Artaud
Senhor Reitor
Na estreita cisterna que chamais "Pensamento" os raios do espirito apodrecem como montes de palhas.
Basta de jogos de palavras, de artifícios de sintaxe, de malabarismos formais; precisamos encontrar - agora - a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma Lei, uma prisão, senão um guia para o espirito perdido em seu próprio labirinto. Alem daquilo que a ciência jamais poderá alcançar, ali onde os raios da razão se quebram contra as nuvens, esse labirinto existe, núcleo para o qual convergem todas as forcas do ser, as ultimas nervuras do Espirito. Nesse dédalo de muralhas movediças e sempre transladadas, fora de todas as forcas conhecidas de pensamento, nosso Espirito se agita, espreitando seus mais secretos e espontâneos movimentos, esses que tem um caráter de revelação, esse ar de vindo de outras partes, de caído do céu.
Porem a raça dos profetas esta extinta. A Europa se cristaliza, se mumifica lentamente dentro das ataduras de suas fronteiras, de suas fabricas, de seus tribunais, de suas Universidades. O Espirito "gelado" range entre as laminas minerais que o oprimem. E a culpa è de vossos sistemas embolorados, de vossa lógica de dois- e - dois - são - quatro; a culpa è vossa, Reitores, apanhados na rede de silogismos. Fabricais engenheiros, magistrados, médicos a quem escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser< falsos sábios, cegos para o alem, filósofos que pretendem reconstruir o Espirito. O menor ato de criação espontânea constitui um mundo mais complexo e mais revelador que qualquer sistema metafísico.
Deixa-nos, pois, Senhores< sois tão somente usurpadores. Com que direito pretendeis canalizar a inteligência e dar diplomas de Espirito?
Nada sabeis do Espirito, ignorai suas mais ocultas e essências ramificações, essas pegadas fosseis, tão próximas de nossas próprias origens, esses rastros que às vezes logramos localizar nos jazigos mais escuros de nosso cérebro.
Em nome de vossa própria lógica, vos dizemos: a vida empesta, senhores. Contemplai por um instante vossos rostos, e considerai vossos produtos. Através das peneiras de vossos diplomas, passa uma juventude cansada, perdida. Sois a praga de um mundo, Senhores, e boa sorte para esse mundo, mas que pelo menos não se acredite à testa da humanidade.
luís felipe posted at 02:21
U2 Stay (Faraway, So Close!) lyrics
Green light, Seven Eleven
You stop in for a pack of cigarettes
You don't smoke, don't even want to
Hey now, check your change
Dressed up like a car crash
Your wheels are turning but you're upside down
You say when he hits you, you don't mind
Because when he hurts you, you feel alive
Hey babe, is that what it is
Red lights, gray morning
You stumble out of a hole in the ground
A vampire or a victim
It depends on who's around
You used to stay in to watch the adverts
You could lip synch to the talk shows
And if you look, you look through me
And when you talk, you talk at me
And when I touch you, you don't feel a thing
If I could stay...
Then the night would give you up
Stay...and the day would keep its trust
Stay...and the night would be enough
Faraway, so close
Up with the static and the radio
With satellite television
You can go anywhere
Miami, New Orleans
London, Belfast and Berlin
And if you listen I can't call
And if you jump, you just might fall
And if you shout, I'll only hear you
If I could stay...
Then the night would give you up
Stay...then the day would keep its trust
Stay...with the demons you drowned
Stay...with the spirit I found
Stay...and the night would be enough
Three o'clock in the morning
It's quiet and there's no one around
Just the bang and the clatter
As an angel runs to ground
Just the bang
And the clatter
As an angel
Hits the ground
luís felipe posted at 02:15
quarta-feira, fevereiro 04, 2004
On candystripe legs the spiderman comes
Softly through the shadow of the evening sun
Stealing past the windows of the blissfully dead
Looking for the victim shivering in bed
Searching out fear in the gathering gloom and
Suddenly!
A movement in the corner of the room!
And there is nothing I can do
When I realise with fright
That the spiderman is having me for dinner tonight!
Quietly he laughs and shaking his head
Creeps closer now
Closer to the foot of the bed
And softer than shadow and quicker than flies
His arms are all around me and his tongue in my eyes
"Be still be calm be quiet now my precious boy
Don't struggle like that or I will only love you more
For it's much too late to get away or turn on the light
The spiderman is having you for dinner tonight"
And I feel like I'm being eaten
By a thousand million shivering furry holes
And I know that in the morning I will wake up
In the shivering cold
And the spiderman is always hungry...
luís felipe posted at 03:21
terça-feira, fevereiro 03, 2004
manifesto webtosqueira
luís felipe posted at 04:45
o dia foi ruim, como são quase todos os dias de férias.
a noite foi boa, como são as noites de férias.
ando preocupado demais, não vou conseguir me livrar de certos pensamentos tão cedo. Acho que preciso de um verdadeiro porre qualquer dia desses. Mas porres são ruins pois envolvem fiasco. Melhor não.
depois da lima e silva vim pra cá, consultar os horários de ônibus que me permitem voltar pra casa de madrugada, descobrindo que não vale a pena chegar no centro por volta das duas da manhã pois terei de esperar uma hora. Melhor chegar as três se for o caso.
Saúdo a volta do Rodrigo ao seu blog, todos já estávamos preocupados; a disposição de Marcela em escrever poemas eróticos, literatura erótica é bom, quebra tabus; saúdo aquelas pessoas que estavam na Lima hoje e eu achava que já não estavam em Porto Alegre (Eduardo, Marcus, Juliana, Schroeder, André e a própria Marcela); saúdo também os comentários de Martin e Pâmela, bom saber que pessoas tão distantes são queridas.
Daniel Carvalho foi vendido, procurei mas não vi a propaganda do renan invisível na MTV, o Renan visível deve estar meio puto comigo pois não fui jogar hoje nem saí com ele...coisas que acontecem, amigo disruptor, eu também lamento ter de voltar sozinho pra casa.
Pessoas dizem que sou sombrio, obscuro. Outros dizem que discordo por discordar, não dá pra me entender direito, um certo eufemismo pra dizer que meus argumentos são fracos. Eu não gosto de ter qualquer certeza em mãos, esse é o problema, pra mim as certezas só se fortalecem com a dúvida; e para a dúvida é preciso palavras, pra certeza não. Que adianta falar sobre algo que se sabe? Marx dizia que devemos duvidar de tudo. Concordo com ele. As certezas guardamos pra nós mesmos.
É tudo uma questão de querer compreender. Quem quer entender, que entenda. Quem não quer, agradeço a atenção mas não perderei meu tempo.
dica: leiam os posts antigos do blog da cecília, são quase todos hilários.
outra dica: site de marcelo benvenutti, recomendado pelo rodrigo e por mim também.
mais uma dica: KZine, o zine em que o distinto escrevia. Os textos são bons, bem inspiradores. Não deve em nada pro falecido cardosonline.
fui, vou dormir. Comam leite condensado com farinha láctea.
(obrigado aos que lembraram de mim pra fazer o juramento dos bixos no trote. Vou me puxar)
luís felipe posted at 03:50
domingo, fevereiro 01, 2004
Quem mora em Porto Alegre ou perto e tem a oportunidade de ver como está o céu, vai entender porque posto aqui essa música do Caetano:
"Lua, lua lua lua....
Por um momento meu canto contigo compactua
E mesmo vento
Canta assim compacto no tempo
Estanca
Branca, branca branca branca...
A minha nossa voz atua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua..."
luís felipe posted at 21:18
Não fiz ainda nenhum comentário sobre Bailei na Curva, uma peça antológica muito bem reprisada pela montagem do grupo do Érico.
Como a Cecília e a Emily já falaram, o Érico faz papéis como o Torugo (tarugo pras gurias), o paulo ricardo do início do filme e mais velho, a freira professora de educação sexual, o cara gay do RU e talvez mais alguém que eu não lembro.
Enfim, todos os papéis são bons, valeu o ingresso, é incrível como as pessoas ainda se emocionam com Horizontes, que é uma música vencida há 20 anos - "e nos 80 eu não vou me perder por aí" - eu mesmo assistindo a peça pela segunda vez me arrepiei com algumas partes, como a hora em que mostram os hippies com a música Summertime da Janis ao fundo.
Que música do caralho aquela.
Depois fomos pra Lima e Silva e ficamos discutindo cinema até as 2:30, quando a mãe da Emily passou e conseguiu uma carona pra todo mundo, até a Assis Brasil pra mim. Mais uma vez eu enchendo o saco dos outros.....:-)
Voltando pra casa, ainda escrevi o texto que tá aqui embaixo. Luiza e André (meus irmãos) foram com Gabriela, Júlia e Laura (minhas sobrinhas) e a Lisandra (minha cunhada) pra praia hoje, deram azar porque deu chuva...que pena....
Vi alguns jogos com meu pai hoje à tarde, ele tá bem mal, então minha mãe resolveu levá-lo na emergência da Santa Casa agora pouco. Rezemos.
música: summertime, claro.
notícias esportivas: Inter 2 (Tiago Saletti e Kauê) X 0 15 de Campo Bom.
não se acanhem em postar comentários.
luís felipe posted at 20:56
Era uma daquelas gurias que entrou na faculdade querendo dar pra todo mundo. Quando os amigos menos esperavam, lá estava ela, agarrada em beijos e abraços com as pessoas mais diversas de todos os cantos do campus. Tinha certa habilidade em fazer isso, tanto que nunca foi chamada de vagabunda, até porque era invejada pelas mulheres, desejada pelos homens. Tinha nos seus "favoritos" do Internet Explorer um site que ensinava a mostrar a WebCam nas salas de bate-papo. "Tá bom, mãe, vou me cuidar", dizia uma das irmãs mais novas dela pra mãe, sempre preocupada com os contatos da filha, que nunca saía do computador. Num belo dia de inverno, a irmã ausente de casa, resolveu procurar em chats um desses caras que adoram se exibir numa câmera, daqueles rapazes solitários e tímidos que passam horas paquerando por um teclado. Numa dessas salas encontrou o ex-namorado.
Largara o ex porque não suportava a sua arrogância e sua forma bruta de comê-la. Transava com ele quase sempre à força, nunca chegou nem perto do orgasmo e isso pouco o importava. Eu fui a pessoa que ouvi todos esses casos dela dos 16 até os 20, jamais ouvi outra vagabunda que não fosse ela. Por algum motivo inexplicável eu adorava ouvi-la. De repente pelo masoquismo de parecer um varão completamente impotente ao lado dela, pois muitos homens já passaram por aquela boca e eu nunca seria um deles. Muitas vezes fantasiei em frias noites que transava com ela da forma que ela queria, com massagens, carinhos nas coxas e beijos no pescoço, mas enquanto cansava meus dedos na cama ela estava agarrada com um louro de olhos claros qualquer pela noite da capital.
Pois bem, quando ela encontrou o ex-namorado tirando a roupa numa webcam, aquela pessoa tão insuportável, grotesca e rude tomou outra forma. A princípio, sentiu nojo e desligou o computador, indo pra cama com vontade de vomitar. Depois, deitada na cama, lembrou daqueles músculos e dos pêlos do peito, pensou duas vezes e voltou a olhar sua câmera. De fato, ele era bonito, e estava se exibindo de uma forma incrivelmente delicada. Fazia poses quase artísticas, mostrava detalhes do seu ventre duro pelos exercícios, mostrava as costas musculosas e marcadas por cravos. Mordeu os lábios. Bateu um tesão por ele aquela hora. Decidiu ligar pra ele e dizer que era a ex. Melhor não. Marcou um encontro para o dia seguinte, na Usina.
Ele foi, e ela o deixou esperando. Por uns quinze minutos. Queria testar a sua ansiedade, que era muita, dois minutos de atraso e ele começou a andar em círculos. Resolveu pregar uma peça, ligou pra ele. "Oi, aqui é a Daiane, tudo bom, onde tu tá?" "Ah, que coisa, eu tô bem aqui no terraço. Vou aí te ver então. Beijos." Ela descia as escadas rindo da molecagem e imaginando a cara dele ao desligar o telefone, pois sabia que ele nunca ia descobrir que a guria do chat era a ex namorada. Foi até o bar flutuante, onde ele combinou de estar. Qual não foi a surpresa quando ela, no caminho, achou um dos vários guris com quem tinha ficado naquele semestre. O guri mais atraente, simpático, que sabia sorrir e tinha uma voz que remetia a homem, mas não exatamente o homem dominador, o homem meigo, amável, que ela procurou no ex e não encontrou jamais. Sentiu-se uma garotinha com um pirulito na mão nos dois minutos em que disse "Oi" "Tudo" "Eu vim ver a Bienal" "Vai pra Cidade Baixa hoje?" "Nos vemos lá então" "Beijos" e ele disse "E aí" "Tudo bom?" "Que veio fazer aqui?" "Legal, eu vim tomar um chimas com amigos" "Acho que vou, mas antes vou tomar banho" "Beijos, guria."
Deu conta do momento terno que tinha passado quando olhou pro namorado, de camisa justa e colar tribal no pescoço, apavorado pois esperava uma guria que jamais viria e que não podia ver a ex pra não pegar mal. Andou um, dois, três passos em direção ao bar flutuante. Olhou o ex andando em círculos. Deu mais um passo. Ele não a viu. Enfim, caminhou até ele e deu um oi. Ele tentou mostrar calma e controle da situação. "Oi, tudo bom?" "Não esperava te ver por aqui" "Acho que vou comprar um livro naquela biblioteca" "Vais esperar o pôr do sol? É lindo" e outras frases curtas com respostas sucintas resumiram o reencontro com o homem que tinha largado. Não doeu. Foi embora sem dizer pra ele que a guria da webcam era ela. Como uma pequena vingança pelas vezes que entrou e saiu do seu corpo sem permissão, fez o seu personagem não comparecer ao encontro. O que o deixou revoltado com todo o mundo externo na semana seguinte - menos com ela, pois ela foi solidária com ele naquele triste e solitário momento.
No dia seguinte fui à Cidade Baixa com ela, que me contou toda essa história. Naquele mesmo dia, o homem meigo que a encantara não compreendera nenhuma das indiretas que ela deu sobre a casa dele e foi embora cedo, pois tinha prova no dia seguinte. Por quase uma hora ela chorou no meu ombro a estupidez de todos os homens e a paixão que não admitia pelo homem meigo. Eu ouvi tudo atentamente e fui embora quando percebi que estava vivendo mais a vida dela que a minha. Saturado de ouvir maravilhas de outros rapazes, voltei pra casa pra fumar e escrever, e na cama vazia, lembrei que tinha pedido a `Papai Noel pra não ser ciumento. Parece que meu pedido só virá ano que vem.
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então, esse texto eu acabei de escrever, outra daquelas idéias que martelam na tua cabeça e tem de sair de algum jeito. É bom escrever relaxado...o título é o mesmo título do post, "Amores platônicos doem".
luís felipe posted at 05:38