sábado, abril 02, 2005
Na casa de campo Marina via as nuvens coloridas. Brancas, cinzas, quase negras, degradê sobre o azul e mais alguns tons de rosa aproximando-se do horizonte. A brisa do lago beijava seu rosto. Beijos dos quais sentiria falta quando da partida do carro. Um celta azul, duas portas. As malas sendo jogadas atrás. Não havia outra música senão das árvores.
Ele se aproxima. O barulho das folhas sendo esmagadas pelo seus passos acelera o coração.
- Me perdoa.
Ela respira fundo.
- Não posso.
- Mesmo depois de tudo que passamos?
- Mesmo. Por favor, saia daqui. Não há mais o que dizer.
Ela levanta-se. Ele a abraça.
- Eu te amo, eu te amo, não sei se vou conseguir viver sem ti. Não sei como vou pensar em outra pessoa. Não sei como vou seguir em frente sem o único incentivo dos meus dias, olhar nos teus olhos. Não sei o que sou sem ti. Isso me apavora.
- Se tu realmente me amasse, não me abraçava pelos quadris.
Marina desvencilha-se dos braços dele e anda rumo à casa.
Marina não tinha medo de viver sozinha. Achava edificante poder servir o café apenas para si, falar com as xícaras sem pensar quão magoadas elas ficariam com uma palavra fora do lugar. As xícaras não são nada complicadas. Poder deitar sem passar por minutos de negociação e explicação sobre os critérios e cronogramas usados para fazer amor antes de dormir. Acostumou-se com a falta dos ombros e dos pêlos do peito de Fernando. Ele não aparecia mais - ela estudando de manhã, ele trabalhando à tarde e à noite. Sempre longe de casa. Quando ela mais precisava de um lar, um lugar para aportar seu corpo cansado e confuso das decisões imaturas de uma não-adulta, só lhe restavam as xícaras, os travesseiros. Não seria diferente agora. Tudo bem que após o café ela sentou-se na cadeira de balanço onde viu sua avó tricotar na infância e chorou como quando ela não a deixava pegar as agulhas. Chorou talvez um pouco mais. Chorou com um sentimento mais adulto. Não mais racional, nem mais sábio. Apenas mais crescido. As lágrimas dessa vez encontraram uma maquiagem para borrar.
Era pra ser assim, não havia outro jeito. A amiga ficou exultante quando ficou sabendo da partida daquele homem, insaciável no ensejo de submeter o corpo de Marina aos dissabores do sexo compulsório e burocrático. Ele achava o máximo. Ela não gozou nos últimos cinco meses. Não havia clima nenhum pra continuar. "Tu acredita que ele se declarou pra mim me agarrando na bunda? Na bunda! Parecia que tava falando pra ela!" disse uma Marina insensível às traições da comunicação não-verbal. Sua amiga Laura ouvia atentamente e enumerava um rosário de motivos para referendar a atitude da guria. Marina era uma guria, tinha vinte e dois, estudava arquitetura. Fernando vinte e cinco, formado em direito e trabalhando com o pai. Laura, vinte e nove. Mãe, solteira convicta, vizinha da casa de campo. Amiga dos tempos de Barbie.
Há muito Laura já tinha perdido a paciência com dissabores amorosos e pessoas que dizem "eu sou assim, queria não ser, mas não adianta, eu sou assim". Por isso a única amiga cujas novidades do coração ouvia era mesmo Marina. Ambas sabiam que problemas no momento insolúveis só se resolviam após algumas horas de lágrimas no quarto ouvindo blues. Porém situações reais, como a de Fernando, geralmente não eram insolúveis e sim passíveis de conselhos concretos, como: "Quem sabe tu não insinua pra ele que tá tendo um caso com AQUELE cara?". Laura adorava conversar com Marina. Passou toda a tarde na casa de campo tomando chimarrão, café e falando mal de Fernando. Ambas sabiam que mais da metade das coisas ditas não importavam realmente.
luís felipe posted at 23:27
seguinte, a partir de agora esse blog terá APENAS textos pretensamente literários.
uma mudança de domínio também está sendo cogitada.
luís felipe posted at 23:20
sexta-feira, abril 01, 2005
para esse cara aqui eu tiro meu chapéu. Invejo com todas as minhas forças a sua forma cáustica, apaixonada, terrorista e empolada de escrever. Daria um dedo para ser tão bom quanto ele.
ouvindo: Grace Slick, divina. Foi apresentada a mim por esse cara.
luís felipe posted at 04:55
são quinze pras cinco da manhã e não adianta, eu não vou dormir cedo esse semestre.
luís felipe posted at 04:42
terça-feira, março 29, 2005
perdoem-me, amigos, mas eu não tenho tido paciência para comentar em blogs, responder scraps ou cumprimentar pessoas ao sair pra rua.
estou levando realmente a sério essa fase de interiorização e reavaliação de conceitos anterior ao aniversário.
se algo vai mudar, não sei, mas a consequência imediata é esta.
luís felipe posted at 19:37