quarta-feira, abril 20, 2005
aqui vai a história completa da Marina.
cada linha indica uma parte, então a terceira parte está depois da segunda linha.
complicado?
então leia de novo :)
Na casa de campo Marina via as nuvens coloridas. Brancas, cinzas, quase negras, degradê sobre o azul e mais alguns tons de rosa aproximando-se do horizonte. A brisa do lago beijava seu rosto. Beijos dos quais sentiria falta quando da partida do carro. Um celta azul, duas portas. As malas sendo jogadas atrás. Não havia outra música senão das árvores.
Ele se aproxima. O barulho das folhas sendo esmagadas pelo seus passos acelera o coração.
- Me perdoa.
Ela respira fundo.
- Não posso.
- Mesmo depois de tudo que passamos?
- Mesmo. Por favor, saia daqui. Não há mais o que dizer.
Ela levanta-se. Ele a abraça.
- Eu te amo, eu te amo, não sei se vou conseguir viver sem ti. Não sei como vou pensar em outra pessoa. Não sei como vou seguir em frente sem o único incentivo dos meus dias, olhar nos teus olhos. Não sei o que sou sem ti. Isso me apavora.
- Se tu realmente me amasse, não me abraçava pelos quadris.
Marina desvencilha-se dos braços dele e anda rumo à casa.
Marina não tinha medo de viver sozinha. Achava edificante poder servir o café apenas para si, falar com as xícaras sem pensar quão magoadas elas ficariam com uma palavra fora do lugar. As xícaras não são nada complicadas. Poder deitar sem passar por minutos de negociação e explicação sobre os critérios e cronogramas usados para fazer amor antes de dormir. Acostumou-se com a falta dos ombros e dos pêlos do peito de Fernando. Ele não aparecia mais - ela estudando de manhã, ele trabalhando à tarde e à noite. Sempre longe de casa. Quando ela mais precisava de um lar, um lugar para aportar seu corpo cansado e confuso das decisões imaturas de uma não-adulta, só lhe restavam as xícaras, os travesseiros. Não seria diferente agora. Tudo bem que após o café ela sentou-se na cadeira de balanço onde viu sua avó tricotar na infância e chorou como quando ela não a deixava pegar as agulhas. Chorou talvez um pouco mais. Chorou com um sentimento mais adulto. Não mais racional, nem mais sábio. Apenas mais crescido. As lágrimas dessa vez encontraram uma maquiagem para borrar.
Era pra ser assim, não havia outro jeito. A amiga ficou exultante quando ficou sabendo da partida daquele homem, insaciável no ensejo de submeter o corpo de Marina aos dissabores do sexo compulsório e burocrático. Ele achava o máximo. Ela não gozou nos últimos cinco meses. Não havia clima nenhum pra continuar. "Tu acredita que ele se declarou pra mim me agarrando na bunda? Na bunda! Parecia que tava falando pra ela!" disse uma Marina insensível às traições da comunicação não-verbal. Sua amiga Laura ouvia atentamente e enumerava um rosário de motivos para referendar a atitude da guria. Marina era uma guria, tinha vinte e dois, estudava arquitetura. Fernando vinte e cinco, formado em direito e trabalhando com o pai. Laura, vinte e quatro. Mãe, solteira convicta, vizinha da casa de campo. Amiga dos tempos de Barbie.
Há muito Laura já tinha perdido a paciência com dissabores amorosos e pessoas que dizem "eu sou assim, queria não ser, mas não adianta, eu sou assim". Por isso a única amiga cujas novidades do coração ouvia era mesmo Marina. Ambas sabiam que problemas no momento insolúveis só se resolviam após algumas horas de lágrimas no quarto ouvindo blues. Porém situações reais, como a de Fernando, geralmente não eram insolúveis e sim passíveis de conselhos concretos, como: "Quem sabe tu não insinua pra ele que tá tendo um caso com AQUELE cara?". Laura adorava conversar com Marina. Passou toda a tarde na casa de campo tomando chimarrão, café e falando mal de Fernando. Ambas sabiam que mais da metade das coisas ditas não importavam realmente.
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Marina teve um outro caso. Começou assim:
- Agora tu vai ter tempo pra sair comigo?
- Como tu sabe?
- Conheço dessas. Tu não ia passar dois dias sozinha na casa de campo a toa.
Ela engoliu em seco e ele sabia que foi um golpe de mestre. O oportunista em questão era Daniel, um caso antigo que volta e meia retorna. Entretanto, por algum resto de escrúpulo, Marina não insinuou a Fernando que estava saindo com outro cara. Nada falou sobre Daniel, mesmo sabendo que ambos se odiavam. Foi uma pena, pois assim ela perdeu a única coisa divertida da recaída. A festa foi horrível, o sexo pior ainda, no almoço dois dias depois ela só falou sobre coisas chatas do trabalho. Ela sentiu que precisava mudar de ares, mas não sabia como.
Também não soube como surgiu na sua vida, por alguns tórridos meses, aquele guri de dezessete anos. Parece que era um primo de uma amiga sua a quem conheceu no carnaval do ano passado e ao mesmo tempo enteado do seu ex-chefe. Fato é que numa festa de aniversário chata até os tubos todo mundo foi dançar Trem da Alegria no meio do salão enquanto ela foi sair para comer, ele foi junto. Começaram a conversar: ela com a desconfiança natural de uma mulher convivendo entre mulheres e homens no seu meio adulto de ser; ele querendo ser adulto e não sabendo como. Todavia, o danado tinha um talento louvável para falar de relacionamentos. Algumas frases dele sobre Fernando ela entendeu perfeitamente, como se precisasse mesmo ouvir aquilo de alguém. Realmente precisava, afinal no meio adulto de ser tudo passa muito rápido, não há tempo para divagações sobre amores que não têm conclusões. Claro que precisava de algum fator que os ligasse de vez, quem fez esse papel no momento foi a música: ele espertamente ficou de levar um CD com gravações raras da Elis Regina para ela mas precisava do celular para saber quando levar e onde.
O celular de Marina ficou no topo da lista de chamadas discadas do guri (que aliás chama-se Daniel também, porém após uma semana ela preferiu chamá-lo apenas de Dani) por uma semana e meia, tempo suficiente para uma intimidade relevante e algumas conversas picantes depois da meia noite, com ela apenas de lingerie no quarto. Mesmo conversando quase todos os dias, só combinaram a devolução do CD num sábado, antes de um filme no cinema. Eles juram que não tinham combinado assistir um filme: na hora em que se encontraram, decidiram ver o mesmo filme, pretexto para mãos juntas e um beijo com mais de uma hora de filme passado: essa característica de adolescente ele ainda tinha, a falta de percepção do timing.
Porém, não o resto. Beijava como adulto: nem uma gota de saliva a mais, nenhuma língua fora do lugar, todos os movimentos das mãos em sincronia com a intensidade da boca. Sabia como tocar, quais os pontos, não sabia porém a técnica talvez por falta de prática com outras mulheres. Obedecia perfeitamente, sem furores de vaidade, como obrigar a mão dela a passar no colar de prata novo ou na tatuagem recém-feita. Até porque era jovem demais para uma tatuagem. Marina tinha o problema sério de todo amante de pensar bem antes de executar qualquer movimento: não foi assim com ele. A sensação única de comandar lhe deu sede de poder sobre o corpo do guri, uma sede inesgotável que não quis terminar na meia dúzia de beijos depois do cinema. Quis então levá-lo para jantar, assistir o pôr-do-sol, buscá-lo de carro na academia até o dia em que o pai viúvo de Marina passava na casa da amante, quando levou-o para sua própria cama. Desnecessário relatar o delírio pelo qual Dani passava naqueles dias, ou o perigo despudorado de levar um menino para a cama onde ela dormia todos os dias. Basta pensar que Dani contou tudo o que aconteceu, com riqueza de detalhes, para seus amigos mais próximos e outros nem tanto assim, como se relatasse um fenômeno único da natureza.
Os laços de Marina e Dani estavam ficando mais fortes e mais preocupantes, para os que viviam em volta dos dois. O pai dela, como sempre, ficou sabendo de tudo mas não se manifestou a respeito, embora olhasse com desconfiança o fortalecimento repentino da sua relação com o primo da Natália, que um dia foi sua empregada. As amigas de Marina passavam do repúdio completo ao desprezo contínuo aos poucos, excetuando Laura, que não apenas entendia como apoiava a situação. Os amigos mais novos de Dani estavam tão deslumbrados quanto ele; os mais velhos chamavam a atenção para a possibilidade de dor e decepção num futuro próximo. Os pais nem desconfiavam.
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Ela passou a buscá-lo na escola e partilhar com ele os relatos sobre os jogos de Magic, os guris maloqueiros do segundo ano, o desprezo pelas aulas de educação física. Ele aprendeu a diferença entre vestido e collant, o que é uma echarpe, como ser cruel com casos antigos e ouviu Billie Holiday pela primeira vez. Ele transou pela primeira vez de pileque, ela descobriu o prazer de amarrar. Viviam apenas um para o outro, o mundo externo parecia todo muito chato. Afastaram-se dos amigos e Dani passou a não voltar mais para casa nos fins de semana.
Um dia, foram até a casa de campo. Dani parecia muito frio e inseguro naquela tarde outonal. As mãos não paravam de suar, os assuntos interessantes de Marina como os trabalhos da faculdade e a tentativa de um novo emprego não vingavam, ele apenas roia as unhas e lia com fervor um Dostoievski. Marina tentou ser carinhosa, tirar sua roupa com os dentes na frente da lareira, porém não deu muito certo: a mãe de Dani ligou, perguntando se estava tudo bem e se ele voltava amanhã. Quebrado o clima foram tomar café. Ela de camisola e casaco se achava mais sexy do que nunca. A seda mais confortável que encontrara na loja. O casaco mais aconchegante. O bamboleio das pernas acendendo o desejo de fêmea.
A pergunta aterradora: ?Ma, no que tu acredita??
?Eu não acredito em duendes?, foi a primeira resposta engraçadinha. Porém, Dani falava sério. ?Acredita numa outra vida? Acredita que seremos santos? Conseguiremos atingir a perfeição? Onde entra o dinheiro nisso tudo??
Questões existenciais. Questões que não alcançavam Marina há muito tempo. Desde a adolescência, a idade de Dani. Questões nas quais ela aprendeu a não pensar para não sofrer. A conversa durou até bastante. ?Eu acho que seria injusto uma vida só?, etc. Porém, Dani queria saber mais. Queria saber o que Marina estava fazendo para ser uma pessoa perfeita e onde que aquele momento contribuía para isso. ?O amor, o amor na sua plenitude?, dizia ela. Porém não era amor, era praticamente puro desejo, Dani sabia disso, ela também e nenhum dos dois estava mesmo disposto a evoluir para a questão sublime da coisa. Até porque o que é sublime é também rotineiro e envolve compromissos aos quais nenhum dos dois estava realmente disposto.
Depois do café ambos foram ver um filme. Marina tinha locado O Pianista, talvez para ambos chorarem juntos. Ela sabia que queria ver Dani mais sentimental e saber o que ele pensava a respeito da vida. Não imaginava ser de forma tão repentina justamente no seu momento mais sexy dos últimos tempos. De repente não era de fato necessário ser sentimental naquela hora. Ela não queria mais brincar de conversar. Deixou O Pianista de lado e pegou Pecado Original. Queria acendê-lo. No meio do filme, de fato, estavam aos beijos e amassos. Ao final do filme, Dani levantou, acendeu a luz e foi ao banheiro. Deixando Marina sozinha na cama exatamente no momento planejado para o ataque final.
Quando Dani voltou, ela já subia pelas paredes, mas tentou manter a calma.
?E aí, que achou do filme??
?Ah, sei lá...?
?Como assim, sei lá??
?Não é o filme que eu queria ver agora.?
Então começou uma longa dissertação a respeito de como os personagens são fúteis e como o filme caminha para o abismo com toda essa indústria hollywoodiana do sexo onde todos são felizes transando e os corpos quentes e como tudo isso é idiota para seres que acreditam no amor sublime e na existência de um mundo além do nosso. Marina não só perdeu qualquer resquício de excitação como revoltou-se antes, a ponto de pensar em mandar o guri embora. Resolveu não discutir. Foi pra cozinha, pegou um café, umas bolachas e começou a comer de forma voraz. Dani foi atrás; ?Aconteceu alguma coisa??. Ela só olhou e continuou comendo. Sabia que se começasse a falar seria difícil parar de chorar. Em alguns segundos e alguns farelos começou a repensar tudo: porque estava envolvida com um guri tão mais novo, descobrindo tantas coisas que ela já descobriu e porque tinha entrado numa fria e como sairia disso. ?Sai daqui?, ela disse, lá pelas tantas. Tiveram uma pequena briga, ela teimosa e irredutível, ele magoado porque ela não o desculpou. Saiu de casa com as malas, ao relento, para fazer um drama, porque sua mãe iria buscá-lo na esquina.
Aí sim Marina começou a chorar.
Não era tão simples assim. Dani tinha tomado conta de uma parte do seu coração. Ela tinha adotado-o para si, como o irmão mais novo que não tinha e o amante que sonhava. Foi atrás dele, ligou, passou na casa, pediu desculpas. Dani, porém, era um adolescente e adolescentes cansam. Até aceitou a volta dela, disse também que nada seria como antes, se pediram desculpas e ficou tudo quase resolvido. Só que Dani não estava mais disposto a levar nada adiante. Sei lá, cansou. Agora que já tinha pego uma mulher mais velha queria pegar outras para ver como era. Não é para isso que estamos aqui?
Assim, Dani se separou de Marina, de uma forma quase canalha porém terrivelmente inocente: ligou dizendo que precisavam conversar e deu um milhão de respostas evasivas, algumas culpando-se pela insensibilidade, outras simplesmente enrolando. Cheio de dedos para dizer algo tão óbvio: não tem mais graça, já era.
Desde então Marina passou a não achar graça também em relacionamentos fáceis e entrou no clube daquelas gurias que não querem nada sério. Alguns meses se passaram, mas dia desses, num momento de solidão, ligou o computador e viu que um amigo novo estava mandando e-mails meigos. Era Fernando. Ligou para ele no dia seguinte.
luís felipe posted at 03:25