quarta-feira, novembro 24, 2004
"Eu morreria em greve de fome...desejaria todo dia...a mesma mulher" (Barão Vermelho)
Ele escrevia contos de humor agridoce e romances intermináveis. Perdia-se nas palavras, nas fitas da máquina de escrever e nas baganas de cigarro que insistiam em cair do cinzeiro. Dia desses perdeu-se nos copos também, derrubando uma garrafa de J&B metade vazia no meio dos papéis do processo de pensão alimentícia da primeira mulher. Foi uma merda, mas por sorte o bico da garrafa pendeu para fora da caixa, onde estava o capítulo dois do último romance que não deu certo. Por um tempo ele admirou a bela metáfora diante dos seus olhos - o papel amarelando-se, embebido pelo álcool, assim como o fígado dele quando começou a escrever aquelas linhas.
Foi até a sacada pensando como sua vida estava cada vez pior. Viu a fantástica lua da noite quente, tal qual holofote na noite, iluminando sozinha a rua divisória entre o prédio dele e o da frente. Duas janelas acesas. A primeira era provavelmente um trabalho de faculdade. Uma menina, óculos grossos, cabelos até o ombro, pijamas, com trocentas folhas ao seu lado, café e bocejos. Ninguém ocuparia a madrugada com algo tão entediante por prazer. Se ela fosse uma escritora, como ele, as pilhas de papéis não estariam organizadas. Voltou-se pra outra janela.
Um casal transando animadamente. No exato momento em que voltou os olhos, ele massageava sua pélvis com os dois polegares, ela de quatro e pernas muito abertas na sua frente e ele movendo os dedos na região periférica aos lábios. Deu pra imaginar que ela gemia. Pensou como era deprimente transar na frente da janela. Depois excitou-se, pensou em ir ao banheiro. Decidiu curtir a paisagem ali mesmo, imaginando estar no lugar dele, com aquela cena maravilhosa da mulher amada de pernas abertas na sua frente, implorando pelo amor do seu sexo entrando vigorosamente.
Tomou um café e escreveu um conto erótico. Poderoso, ardente, sensacional. Um conto como nunca tinha conseguido escrever antes, capaz de excitar até os bancos da praça. Descrevia uma sensacional orgia cuja protagonista era uma mulher caroneira de ônibus e cujos coadjuvantes eram duas amigas delas e três passageiros. Achou fantástico que a inspiração tinha vindo daquele casal.
Outro dia, madrugada também, pensou em buscar inspiração novamente na cópula alheia. Olhou pra mesma janela acesa de antes. Viu um homem exageradamente branco, com uma barriga de chope grotesca, tirando uma cueca de bolinhas defronte à uma morena. Uma mulher de nádegas estriadas, nariz de batata e incrivelmente a mesma barriga de chope do seu parceiro. Ela de quatro, tinha seu sexo apertado pelos dedos do homem sem o menor jeito e seus gemidos estridentes doíam nos ouvidos. Tanto que o melhor foi pôr um CD do The Animals em volume considerável.
Antes de organizar os papéis que restavam sobre a cama, decidiu olhar a outra janela. Viu a menina de óculos e cabelo até o ombro apenas de sutiã penteando os cabelos. Pensou naquela pele macia, na calidez das alças apoiadas sobre os ombros, pedindo pra cair com um simples movimento de dedos. Imaginou o cheiro que não teria aquele dorso recém saído do banho.
Escreveu outro conto erótico sensacional. No dia seguinte, lamentou não ter mais janelas acesas de madrugada e foi dormir na casa de um amigo.
luís felipe posted at 02:00