quarta-feira, outubro 06, 2004
Há um verdadeiro surto de textos melancólicos, chorosos e reclamantes nos blogs à esquerda faz algum tempo. Não sei até onde eu segui essa linha ou não, muito provavelmente não, porque me esforço para fazer desse espaço uma realidade paralela, um veículo de transição entre o eu vivente e o eu escrevente, se é que eu entendo o que escrevi. O que quero dizer com isso é que quero fazer desse blog um espaço alienado das queixas do meu coração. Até porque meu coração é muito impulsivo, eu sou muito chato e acabaria magoando meio mundo com todos os meus pensamentos.
Eis que em verdade vos digo: é impossível.
Alienar o coração da escrita é impossível. Não dá pra ser imparcial, já vimos isso milhares de vezes. Podemos ser racionais, mas nunca estritamente, totalmente. Escrevo pra vocês nesse momento enquanto sinto um silêncio cortante, aterrador, drástico, na minha casa. Minha mãe dorme sozinha. Mais uma vez, mais um dos tantos dias que se seguiram desde as revoluções aqui de casa. Ela no primeiro andar, eu no segundo. Sei que ela já sentiu mais isso antes, eu procurei ignorar, talvez para que a dor das perdas também não me fizesse sofrer. Ainda faço isso, inescrupulosamente, tornando meu peito uma fortaleza impenetrável aos cortes do vazio que se abate sobre essa casa. Que sempre esteve cheia de gente e vida. Assim quiseram os que vieram antes.
Às vezes essa fortaleza cede, como no dia em que chorei copiosamente na rodoviária. Duas pessoas me viram com lágrimas nos olhos - o Cristiano e a pessoa que eu mais quero na vida hoje. Agora externo para todos vocês, agora vocês poderão imaginar as minhas lágrimas, que não saem fáceis como quando eu tinha menos de quinze anos. Tenho inveja dos que sabem chorar, porque eu não sei, nunca soube, não aprenderei até que as responsabilidades da vida me aterrem e eu tenha de esconder sempre as lágrimas para parecer um homem forte. Por que chorei aquele dia? Porque abateram sobre mim os pesos da culpa, da dor e da solidão, arrebatadores, intransferíveis. Dói pra caralho, vocês sabem. Não quis escrever aquele dia, não quis compartilhar disso com vocês, porque vocês não teriam o que comentar, ficariam parados olhando para o texto com aquela cara de "Meu Deus, porquê?". Ou então vocês se sentiriam enganados, porque no dia seguinte eu me alegraria com uma coisa qualquer e vocês perguntariam "Tá melhor?" e eu responderia um "Sim" radiante, totalmente contraditório com meu post do dia anterior. Emoções passam, palavras ficam.
Aos que não entenderam nada e/ou querem algum sentido final, ei-lo: eu também fico triste e melancólico sim, os motivos acima declaram porque eu não gosto de escrever no blog. Pelo menos não gosto enquanto a lua estiver nessa fase, amanhã eu posso gostar. Amanhã talvez eu escreva um troço extremamente lamurioso, vocês ficarão lendo com a cara de "Meu Deus, porquê?", comentarão lições de vida ou ficarão calados até esquecerem as minhas desgraças. Claro que a vida não é só desgraças, respostas árduas ou pactos de mediocridade. Mostrem isso para os seus leitores, camaradas.
(Jorge Ben - Take it Easy my Brother Charlie)
e hoje eu assisti "A Dona da História" que mostrou que os filmes românticos brasileiros ainda são muito melhores que os enlatados, que a Marieta Severo continua uma BAITA atriz e que o Antonio Fagundes merece bem mais do que aquele papelzinho medíocre em Deus é Brasileiro (não que Deus seja medíocre, longe disso, mas o filme é)
luís felipe posted at 23:59