terça-feira, outubro 26, 2004
Publicarei aqui meu último texto da aula de português III, chamado "Das Ilusões para a Mediocridade".
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Fui um estudante marxista, lá pelos 14 anos. Isso na época que ser petista era ser socialista, inclusive os petistas participavam de destruições de relógios da burguesia. Mas isso é assunto pra outro texto. Pois bem, como estudante petista e marxista, acreditava piamente que a minha profissão tinha a missão de transformar a sociedade, de ser um dos focos da revolução cultural que poderia se desencadear no país. Eu já sabia que queria cursar jornalismo, influenciado por uma professora de português que adorava os meus textos (ah, que saudades das boas professoras de português...).Nessa época então, 14 anos, 1998, o socialista Olívio chegando ao governo do Estado, imaginava que seria um jornalista contrário ao sistema burguês, revolucionário, que destruiria a RBS e a Globo com o poder da minha palavra. Sim, eu era um tanto pretensioso. Mas só depois fui descobrir que não só era um pretensioso como também um iludido.
Começando pelos fatos políticos, e nesse momento é inevitável tocar no contexto atual. O PT, partido pelo qual militava e no qual acreditava, a ponto de levar bandeiras, buttons, adesivos por toda parte, e de tentar convencer meus amigos a votar na estrela amarela sobre fundo vermelho, não é mais um partido socialista. Aliou-se em 2004 com quase todos os inimigos de 1998, desde banqueiros internacionais até coronéis nordestinos. Visto que os partidos que restaram à esquerda depois desse golpe petista ou são ridiculamente quixotescos ou são vendidos ao grande capital, resolvi esquecer a política partidária, o que me tornou menos ativo na luta. Também descobri ser um iludido quando entrei na faculdade. Imaginava ser a faculdade um grande lugar de debates e fóruns políticos, bem como a de comunicação ter uma verdadeira importância no contexto da mídia local, com rádios, jornais e outros instrumentos de formação de opinião. Nos meus quatorze anos, sonhava com mobilizações estudantis como a dos caras-pintadas e da nacionalização do petróleo e imaginava ser a minha realidade futura.
Deparei com uma faculdade escondida dentro de um campus de saúde, equipamentos obsoletos e uma inércia, uma modorra, uma mediocridade presente na cabeça e nas atitudes da grande maioria dos alunos e professores. Já tinha sido avisado disso bem antes, portanto já estava mais ou menos preparado, mas ainda assim cheguei surpreso. O currículo do curso de jornalismo está ultrapassado e nenhum professor se importa em estudar uma mudança mais profunda; fazem reuniões estéreis, baseadas em achismos, chegando ao cúmulo do voto universal para decidir se a cadeira deve entrar ou não. Não há um periódico com matérias jornalísticas partindo da faculdade de comunicação, salvo projetos de professores e abnegados colegas; não há uma agência experimental onde possam ser desenvolvidos os conhecimentos do aluno e transmitidos para a sociedade, por iniciativa da faculdade. O poder de comunicação da FABICO com o mundo exterior é absolutamente insignificante, o que é intolerável para um centro acadêmico pago com impostos de toda a sociedade civil.
Nesse quadro, vi podado o meu desejo de transferir minhas idéias radicais para o mundo. Primeiro que elas já não são mais tão radicais como antes; inevitavelmente tive de me adaptar ao ambiente e ser mais realista em vários pontos. Segundo que mesmo se ainda tivesse os mesmos ideais dos meus 14 anos, eles ficariam confinados dentro de um espaço insalubre para o desenvolvimento de grandes idéias, escondido num canto da Ramiro Barcelos 2705, esquecido pela sociedade, desprezado pela comunidade universitária. As grandes idéias surgidas na FABICO ? como as revistas Sextante e Três por Quatro, material de qualidade suficiente para ser difundido nas bancas de jornais ? não são conhecidas mesmo pelos vizinhos do prédio ao lado, a menos que sejam compradas por uma grande empresa de mídia, tal como a (outrora execrável, hoje a salvação da pobre lavoura de mercado de trabalho jornalístico) Rede Globo e suas afiliadas. Uma vez compradas, servem aos interesses dos donos dessas empresas, geralmente escusos e sempre escondidos atrás de uma fachada mentirosa de impassível imparcialidade. Essas idéias passam a servir para legitimar o interesse das quinze famílias que controlam a mídia em manter seu filão de poder político, mentindo para o povo, dizendo que são a verdade e a razão. Os talentos desenvolvidos na faculdade de comunicação da UFRGS ou caem no ostracismo e na excentricidade ou passam a servir as doutrinas hipócritas dos Frias, Marinho, Sirotsky e outros baluartes da grande mídia.
Não há, entre todas as outras profissões, um futuro tão nebuloso como o da profissão de jornalismo. Nem entre os enfermeiros, que correm o risco de ter sua atividade decepada pelo autoritarismo do Ato Médico; nem entre os advogados, que vêem pela frente depois do diploma uma quantidade astronômica de exames, testes e de pessoas iguais a eles degradando-se moralmente pra conseguir o seu sustento. A questão do jornalismo é muito pior, pois só há um senhor a servir, o da informação corrupta. Todos os outros têm um poder de inserção social minúsculo. A escritora norte-americana Susan Sontag disse que não há tempo pior para ser revolucionário do que este. Como o tempo para ser jornalista também não é dos melhores, creio que aquele garoto que foi radical em 1998 pode ser declarado desaparecido.
luís felipe posted at 00:05