quinta-feira, setembro 09, 2004
Existem coisas que se resolvem com um olhar para o pôr-do-sol e uma frase qualquer de final de noite, mas existem outras que não. Existem problemas dos quais a gente foge passando uma tarde inteira bêbados, até descobrir que eles voltaram e não vai ser tão fácil assim, já que perdemos um dia para refletir sobre eles. Existem também coisas que não se perdem. Amigos que só conhecemos depois das brigas. Pessoas maravilhosas que vivem demais sem saber lidar. Pessoas ainda mais incríveis que não sabem que tudo pode se perder em um segundo e que se arrependerão quando isso terminar.
Não quero dormir ainda que meus olhos implorem. Sei que o esforço de manter minha mente ocupada por mais alguns minutos pode produzir um bom texto. Sei também que o cansaço nunca produz bons textos. Nem a angústia, nem o sentimento reprimido, nem a infelicidade das coisas não ou mal ditas. Sonho em fazer todas as perguntas para os amigos espirituais e que eles me respondam. Sonho com suas respostas. Claro que elas não chegam. O mundo, o destino ou a natureza diz pra mim "te vira com o que é terreno". Tá bom, tá bom, vou tentar de novo. Talvez vou tentar fugir desse mundo e pensar no mundo que um dia meus ídolos sonharam com ácido lisérgico. Queria muito experimentar ácido. Só que viajar de cabeça quente é um problema, era preciso fazer uma revisão nos motores antes, o que estou fazendo agora, por isso estou aqui.
E também por isso eu liguei pra Natália. Natália era uma guria que eu odiava quando tinha dezesseis e lia O Apanhador do Campo de Centeio em inglês - ou seja, era o guri mais prepotente da face da terra. Achava ela muito fútil e todas aquelas coisas ruins quando se é um adolescente que pensa que sabe tudo. Briguei com ela várias vezes. Frequentamos a mesma sociedade espírita. Não suportava nem os argumentos nem os abraços dela. Precisei envelhecer três anos para usar os mesmos argumentos e dar os mesmos abraços em pessoas diferentes. Depois que passei a entendê-la, nunca mais dei três beijinhos. Então eu liguei pra ela e falei tudo o que precisava dizer. Ela me ouviu e deu sábios conselhos. Eu cheguei a ponto de chorar no telefone, quando lembrei das brigas que tivemos e como eu respeitava ela agora. A Natália é uma pessoa admirável, ela me pegou no extremo da intolerância e pior, foi vítima disso. Mesmo assim sempre quis ser minha amiga.
Além de aprender a abraçar minhas amigas, com a Natália aprendi a não descartar as pessoas. Hoje uma guria com quem falei algumas vezes no início da faculdade me cumprimentou. Duas vezes. Ela não fazia isso há alguns meses. Nunca entendi o porquê. Ela até puxou assunto a respeito da cadeira dela no LICO. Tem amigos meus que não gostam dela. Dão diversos motivos, defeitos de sua personalidade, para isso. Quero crer - e para isso serve a Pollyanna, veja só - que é uma pessoa tímida, que tem problemas pra se relacionar com o mundo externo, digamos. No desejo de crer nisso é que pretendo nunca descartá-la, dizer que odeio ela e não quero saber dela. No máximo - e isso faço com quem já declarou que ME odeia - vou fingir que não existe.
Como seria bom e fácil chutar o balde pra cima e dizer "não quero saber, dane-se o mundo, morram essas pessoas com quem me preocupo". Seria bem mais simples não voltar pra casa com enjôo no estômago, um enjôo que já senti antes, quando sabia que meus sentimentos estavam afogados, meus desejos reprimidos, as palavras engasgadas. Desopilar, nem que seja na cabeça das pessoas que mais gosto. Meu irmão, lendo isso, provavelmente me recomendaria o kung-fu. Mas faz tempo que não desopilo aqui mesmo, nas letras, para que todos leiam. Já aviso às pessoas que se sentem envolvidas nesse texto: não comentem nada comigo. Leiam e pensem o que quiserem. Quero ver suas palavras traduzidas nas atitudes. Sei que essa sempre é a parte mais difícil, eu não sei se faria. O que eu sei que não vou fazer é descontar meus problemas em cima de quem não merece. Pelo menos, vou tentar não fazê-lo.
Hermann Hesse disse com muita propriedade num livro clássico seu: "Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser." Essa frase é para nós, SER é OUSAR ser. SER é LIBERTAR-SE. SER é saber quando algo MORREU e precisa ser trocado por algo NOVO. E quando levamos essa NOVIDADE para dentro de nós mesmos, estamos sendo. Eu quero ser. Eu pretendo ser. A busca é dolorosa, é sofrida, eu sei. Mas eu quero.
luís felipe posted at 01:12