domingo, agosto 15, 2004
Eu quero falar daquilo que desejo
mas se desejo
não posso fazer uma lista de supermercado
eu desejo batatas, cenouras e morangos
tudo na mais perfeita ordem
com preços, prateleiras e prioridades.
Teria de falar com o coração
Mas ele não consegue falar
só bater.
e bate muito forte, quando penso no que desejo
e sinto meus olhos fecharem, meus pêlos arrepiarem
meus ombros relaxam e minha boca enche d'água
e começo a sentir o cheiro, os músculos ansiosos
os calafrios pela coluna e a garganta
então abro os olhos e tudo que vejo
é um papel em branco
onde as letras lutam contra o impossível.
Penso em como é bom saber dizer
Mas sei, é o que dizem
A língua materna sempre me dá notas altas.
Penso que não sinto de verdade
O que seria uma inverdade
Um mal entender das reações do corpo.
Paro de pensar e ouço uma música
Como pode, ela me exprime por inteiro!
Cada acorde, nota, sustenido
Versos da letra, a métrica, perfeita!
Vou falar dela, até ensaio algumas letras
Então lembro-me do sábio violonista:
"Porque fala do que não entende?"
Talvez seja isso, não entendo de mim mesmo
Não entendo minha emoção
Não transcrevo minha inspiração e quando o faço
Os mestres dizem
Que não foi dessa vez.
A impressão então é constante:
Quando muito digo, nada sei
Do que mais falo, pouco entendo.
Talvez não seja a hora
De perder tempo escrevendo.
luís felipe posted at 23:21