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terça-feira, agosto 17, 2004

No que tocou o primeiro sino, ouviram-se os grunhidos:
- Morra! Morra!

Vinham de uma voz demoníaca, sobre os ladrilhos da praça, as nuvens ressoavam num esforço pra calar, as flores murchavam não querendo ver, o vento ressoava, batia as janelas, mas os golpes de cutelo não desmentiam a atrocidade que ocorria nas barbas de todos.
- Morra! Morra, verme!

O padre ouviu e começou a rezar. Lá pelas tantas decidiu simplesmente fechar as portas e negar-se a saber daquilo. Era o destino que Deus firmou. Era da vontade de Deus que as pedras douradas estivessem no seu altar, como dádiva gloriosa, como oferenda dos mortais à sua magnitude. E mesmo Jesus Cristo sabia dos custos que tinham as oferendas para o Senhor, tanto que foi a maior delas todas, oferecendo sua vida pra salvar a humanidade. Um barulho de osso quebrando atravessou uma fresta da porta e doeu no sensível ouvido do padre. Mas lá de dentro, os grunhidos tornaram-se vibrações sem nexo.
- Morra! Morra!

A menina também sabia que o destino era selado. Sabia que seu pai era forte e não ia sucumbir. Fora humilhado por aquele cabra infeliz, sem posses nem terra, perdido no mundo dos falsos profetas. Casara com uma prenda virgem, pubescente, mas de beleza única e saudável como vaca leiteira. Teve com ela uma noite inesquecível, recuperando o tempo perdido, quando a esposa morta pela tuberculose lhe deixou duas filhas e um coração sem rumo. Escolheu então a prenda a dedo, pra não sofrer com doença até a morte, e deixar herdeiros gordos e orgulhosos da honra da mãe. A menina sabia de tudo isso quando viu o cabra infeliz deixar o quarto dela molhado de suor na manhã antes do feriado da padroeira. A prenda também sabia. Tanto que abaixou a cabeça e só levantou pra ver a cara de horror da filha, escondida do lado do armário, pra não ouvir os gritos do pai:
- Morra! Sangre até a morte, maldito!

O sangue já lavava o pulso, escorria pelo sovaco e espirrava na boca. Havia passado o efeito inconsciente, quase diabólico, cruel e inescrupuloso, do prazer no retalhe. Viu a sua roupa azul e branca suja e sabia que não tinha como lavar. Pagara o padre pra não falar nada, a polícia pra não ver nada, mas o corpo estava ali, destroçado em bifes, no meio da praça. Não sabia o que fazer. Chorou, mas sentiu o mundo olhando. Homens não choram. Rezou, mas sentiu Deus nos seus ombros e perdeu a voz quando falava, até não saber mais o que rezava. Ainda não sabendo, arrastou o corpo para a direção do cemitério, até cansar. Parou então meia-hora. Por ali havia um bar onde alguns homens se acabavam. Pensou em deixar ali. Viu um lugar perto dos barris. Deixou ali e tapou de feno, esterco. Não dava pra ver nem de perto. Quando saiu, passou na frente do bar, onde três homens o olhavam. Não tinha visto nenhum deles antes. Os homens olhavam, sorriam, olhavam de soslaio e desviavam. Ficou aterrorizado. Saiu correndo para casa, sem saber que iria fugir de si mesmo pelas próximas décadas.


luís felipe posted at 03:04

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