quarta-feira, julho 21, 2004
Cansado de dizer bobagens, parei de bater a máquina e tentei fumar. Lembrei que decidi parar e peguei uma lata de Leite Moça na geladeira. Bebi o suficiente para pedir água, mas o telefone tocou antes disso.
- E aí, já terminou?
- Não. Tá faltando uma referência bibliográfica. Vê lá o esquema do livro do Sartre e me liga depois.
O papel me encarava insólito, anestesiado pelos golpes dos tipos. O esforço era o suficiente para saber que aquele trabalho não serviria pra nada no contexto histórico da humanidade, a não ser uma graduação a mais no ordenamento. E uma cadeira a menos pra concluir o curso, essas coisas fúteis que pensamos quando não estamos ocupados com coisas melhores tais qual fumar ou beber leite condensado.
Até que começaram os estampidos no apartamento de cima e o gato resolveu se esconder debaixo do sofá. Um, dois, três. Aquele barulho aterrorizante de tiros, fazendo lembrar que uma bala atravessou o corpo de alguém ou, na melhor das hipóteses, alguma coisa inanimada. Aquela sensação terrível de impotência ? não sair por medo de levar um tiro, não ligar por medo de ser ouvido, não ficar parado por medo de ser atingido ? trocada pelo pavor absoluto quando do barulho do elevador somado à campainha.
Uma rápida e suada espiada no olho mágico, o inconfundível chapéu e a barba branca do outro lado. Pego uma velha garrucha e abro a porta. A voz serena é conhecida, a forma de dizer "boa noite", também. Nada que me impeça de tirar o cano da arma pra fora e verificar se alguém o escolta. Não.
- Pode entrar.
Bato a porta. Tem café na mesa, vamos conversar. Pego a lata de leite condensado e ponho uma cadeira na frente da minha.
luís felipe posted at 05:54