terça-feira, julho 13, 2004
Artigo
Benfica, onde fica?
MARCOS ROLIM/ Jornalista
Há pouco mais de um mês, uma rebelião na Casa de Custódia de Benfica, no Rio de Janeiro, deixou um saldo de um policial e 18 presos mortos. A cobertura da imprensa ofereceu destaque à violência e chamou a atenção para a selvageria resultante da briga entre os presos. Algumas circunstâncias do episódio - exatamente aquelas que lhe emprestam maior significado - não foram, entretanto, percebidas.
A primeira delas diz respeito ao perfil das vítimas. Relatório de uma Comissão Externa da Câmara Federal, assinado pela deputada Denise Frossard, revela que os 18 presos mortos estavam detidos - todos menos um - por processos que não deveriam ensejar a pena privativa de liberdade. Assim, por exemplo, Francisco da Costa havia sido preso quando tentava furtar um par de tênis em um shopping; David Pereira, sob a acusação de dano ao patrimônio público e desacato; Jorge da Silva era morador de rua e foi preso por uma tentativa de furto de R$ 50; Leomel Gregório, por tentativa de furto de uma mochila; Wagner Souza Dantas, por tentativa de furto de um relógio; Leonardo Santos por tentativa de furto da placa de inauguração da estação ferroviária; Rogério Gomes Brum, por porte de maconha; Alessandro da Silva, acusado pelo roubo de um celular e, assim, sucessivamente. Ninguém irá entrevistar os excelentíssimos magistrados que homologaram as prisões dessas pessoas, é claro. A maioria deles, aposto, sequer se questionou sobre as suas responsabilidades na tragédia. Mandar pobres para a cadeia, afinal, faz parte de sua rotina.
Também não se perguntará ao senhor Anthony Garotinho se é aceitável que se amontoem mais de 800 pessoas em um prédio que jamais poderia ser um presídio, ou que se coloque em um mesmo espaço presos identificados com facções rivais. O casal de aventureiros que dirige o Rio de Janeiro também não precisará explicar por que a Casa de Custódia era administrada por uma cooperativa de policiais evangélicos, contratada sem licitação; nem por que os negociadores do Bope foram descartados por um pastor que chegou ao presídio em um helicóptero para assumir o comando das negociações com os amotinados. O princípio republicano da laicidade do Estado, aliás, vem sendo desconstituído no RJ, onde as escolas já começaram a "ensinar" que Deus criou o homem, que de uma de suas costelas veio a mulher etc.
Folclore à parte, o problema de fundo é que Benfica não existe. As pessoas que morreram lá, trucidadas em meio a um dos mais violentos motins da história brasileira, também não existem. Para o senso comum e para a anestesiada consciência cívica brasileira, o que ocorre atrás das grades não é sequer um problema verdadeiro. Também por isso, somos o que somos. Também por isso, é difícil compreender Mandela quando ele afirma: "Uma nação não pode ser julgada pela maneira como trata seus cidadãos mais ilustres e sim pelo tratamento dado aos mais marginalizados: seus presos". Também por isso, meus amigos, nos faltam Mandelas e nos sobram Garotinhos. Que sina!
publicado na Zero Hora de domingo.
Aliás, tirei A com o Milman, o texto foi publicado na .loja, tenho outra prova de economia pra fazer na quarta e matei a saudade.
luís felipe posted at 00:45