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quarta-feira, junho 16, 2004

Minha mãe disse hoje na janta:
"Eu passei hoje pelo Hospital Santa Rita. Foi difícil. Tu vê aquelas pessoas na janela e pensa 'puxa, daqui a pouco são elas...'".

Daqui a pouco somos nós também. E tudo vai ficar. Thedy Corrêa acaba de me dizer nas caixas de som que "o tempo passa e nem tudo fica." Sim, nós não ficamos. Nem nossas bobagens e coisas idiotas com as quais estamos sempre perdendo tempo. Aliás, perdendo um tempo que certamente estaríamos usando com mais coisas banais e fúteis. É óbvio que sempre há aquilo que regozija o espírito. Falando sobre isso, o mestre Artaud declarou certa vez não ter espírito, ou algo perto disso. E se ele tivesse um espírito, ele só se sentiria regozijado com o obsceno.

Mas há algo maior que o obsceno. Estou cada vez mais firme na idéia de que a crença em algo maior nos ajuda a relevar questões fúteis que julgamos ser de grande importância em certo momento. Lembro-me, por exemplo, de uma noite em Laguna em que meu pai quis bater em mim graças à uma discussão idiota onde chamei minha mãe de burra. Chamei não. Disse isso aos berros e às lágrimas. Não me recordo do motivo. Ao que na sacada da casa que alugamos, eu espero o consolo do meu pai, que me chama e diz: "Se tu falar mais uma vez isso eu te sento a mão na cara!". Profundamente entristecido, eu saí a esmo pela rua e hoje não lembro o que me fez voltar, pois eu tinha a convicção de que não queria voltar.

Quatro anos depois do ocorrido, o que restou? De que adiantou o ódio que se abateu em mim naquela noite? De que adiantou aquele teatro de discussões banais que quase resultou numa crise familiar muito grave? Porque não usamos aqueles minutos em que estávamos todos juntos, que hoje fazem tanta falta, para pensarmos em algo bem melhor?

Porque é sempre assim, como diria um filósofo que o Peck citou pra mim certa vez: "A vida é aquilo que acontece enquanto você está pensando em outra coisa."

Parece que venho eu novamente com mais uma daquelas reflexões tapadas de clichês e frases feitas. É exatamente isso, dane-se. Isso não é uma página literária. É uma página pra quem quer ler sobre mim e o que eu estou pensando. Pra isso servem os blogs, afinal de contas.

Voltando ao assunto, queria fazer o registro de que é muita perda de tempo preocupar-se demais com pouco. Frases que foram mal-interpretadas, questões sociais que não serão resolvidas nem fechadas de imediato, amores não-correspondidos que nunca nos merecem e cuja melancolia provocada pela decepção pode ser muito melhor usada nas cordas de um violino ou nas palavras de um grande texto. Não vamos pôr nossa vida nas mãos de quem não terá o menor remorso em jogar tudo fora, como papéis velhos.

Caros amigos, nunca nos esqueçamos de que a vida é efêmera e que ela faz parte de algo maior. Se é difícil crer em Deus, creia no seguinte: as nossas decepções não são NADA perto dos problemas que se passam pelo mundo terrestre enquanto estou digitando isso. Não pretendo discordar de ninguém. Mas espero que essa reflexão ajude alguém.

Agora eu vou para uma efêmera retratação de uma matéria efêmera que discutiu um assunto efêmero.


luís felipe posted at 21:44

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