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quinta-feira, março 18, 2004

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O poeta e a caneta

Têm umas expressões que desembarcam no nosso vocabulário despretensiosamente, quase como uma firulinha, e vão crescendo e se espalhando até você ser incapaz de lembrar que um dia elas não estiveram ali. Não me pergunte por que, mas lembro exatamente da primeira vez em que ouvi a expressão "videoclipe", por exemplo. (Como era mesmo que a gente chamava os clipes que davam no Fantástico nos anos 70, antes de inventarem a palavra clipe?)

A primeira vez em que topei com a expressão "blog", coisa de um ano ou dois atrás, achei que era uma daquelas manias de Internet que só interessaria à massa de pessoas que já nasceu para o mundo conectada a uma placa de modem. Quando surgiram, os blogs foram imediatamente associados à tara contemporânea pela auto-exposição e pelo voyeurismo. Atraídos pela facilidade técnica do processo de colocar um diário na Internet, não-celebridades de todo o planeta passaram a relatar, a quem interessar pudesse, o que estavam sentindo quando acordaram, o conteúdo de suas gavetas, o quanto amavam-amavam-amavam alguém ou muito antes pelo contrário. A aldeia global foi repentinamente substituída pelo quarto de dormir global: um dia todas as fronhas terão seus 15 minutos de glória.

Os diários irrelevantes na Internet, tanto quanto os reality shows, vieram para ficar, e não adianta fazer beiço - ainda que o beiço seja a mais legítima e universal manifestação diante do desconhecido. Muita gente jovem demais para ignorar a novidade e velha demais para assimilá-la com facilidade ainda pronuncia as palavras "blogs" e "blogueiros" com um indisfarçável tom de desprezo. O que não deixa de ser engraçado. Sim, porque a esta altura do campeonato considerar blogs um gênero em si e não um mero meio de expressão é tão tolo quanto culpar a caneta pela má qualidade do poema. A Internet está lotada de páginas interessantes escritas nesse formato, assim como as grandes bibliotecas estão lotadas de livros bons e de livros ruins. (Minha dica do dia é o blog http://mblog.com/fantasma, do jornalista gaúcho Eduardo Nasi: ágil, informativo, bem-humorado e sem nenhuma linha sobre meias ou gavetas, eu garanto.)

O negócio é que já tem até filme com jeitão de blog. Estreou na semana passada em São Paulo o documentário 33, do mineiro Kiko Goifman, uma espécie de diário filmado em que o diretor narra, em clima de filme noir, sua busca pela mãe biológica, 33 anos depois de ter sido adotado. Maneirista, auto-referente, exibicionista, o filme pode gerar vários tipos de crítica, mas é impossível sair do cinema sem dizer para si mesmo "opa, tem alguma coisa diferente aí". Muita gente vai fazer beiço, mas se eu fosse você não deixaria de assistir quando estrear em Porto Alegre.


O texto é bom, mas eu teria uma pergunta a fazer para essa conservadora criatura: porque ninguém teria interesse em saber da sua vida?


luís felipe posted at 00:43

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