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quinta-feira, fevereiro 12, 2004

João sempre quis ter uma bateria, para acompanhar seu amigo Fernando nas noites regadas a rock’n roll de garagem e muita vodka na casa dele em Humaitá. Só que como João não tocava e a vodka não era muita, Fernando ia com seus amigos da banda e depois contava como eram as noites. Contou que uma vez eles começaram a tocar Stones quando ouviram uns gritinhos na casa do lado. Eram duas gurias numa piscina, quase de madrugada, dançando e tirando a roupa pra mergulhar. As moças estavam bêbadas. Cogitaram em convidar os quatro rapazes que tocavam bateria, baixo, guitarra base e solo na garagem do lado. Os quatro se excitaram com a possibilidade de fazerem uma festa com suas primeiras groupies, mas depois se apavoraram e ficaram só olhando. Até que uma delas chamou e eles pularam o muro. Só que as gurias não sabiam beber e passaram a noite inteira rindo de nada e vomitando muito, sendo que ao final todos levaram as moças carregadas pra cama com baldes do lado. É claro que João não precisava saber disso, e Fernando deixou implícito que comeu as duas gurias. Assim, João remoeu o ciúme nas unhas e amaldiçoou a mãe por ter dinheiro pra trocar de carro e não pra lhe dar uma bateria.

Até que no inverno a mãe resolver dar um presente de aniversário decente pro moço, pois depois de anos de aperto tinha sobrado uma boa grana e chegado a herança da tia de Canguçu. João ganharia uma carteira de motorista e caso passasse de primeira na auto-escola teria o direito de usar o Palio Fire da mãe três vezes por mês. Se ele passasse na UFRGS no final do ano e a irmã mais velha também, ela poderia dar um carro de presente pros dois. Mas por enquanto, só a auto-escola. Fernando ia com ele nos dias das aulas e dava aquele incentivo, falava sobre virar a noite na Lima e Silva, pedir a Taís em namoro, quem sabe até levá-la pro motel, sem esquecer de dar uma carona pro amigão e pra sua ficante Mariana, é claro. João passou nos testes sem perder um ponto, levou a carteira direto, pra orgulho dos pais e euforia dos amigos. Juliano, o irmão mais novo, ficou enciumado e correu pra casa da avó, que lhe deu uma bicicleta de presente. Como a banda do Fernando não fazia mais do que um show por mês nos cantos obscuros da Cidade Baixa, João tornou-se o motorista da banda. Se não sabia tocar, pelo menos era o holding bem arrumado que tinha um Palio Fire vermelho e conhecia de perto todos os “gatinhos” da banda.

Passado um mês, pediu a Taís em namoro e levou-a pro motel Antares, onde descobriu que ela era virgem e tinha nojo de sexo oral. A guria se apaixonou, escrevia cartinhas de amor, contava pras amigas como foi a primeira vez, mas de certa forma João achava que podia mais. Depois daquela primeira vez suada e fria na praia, a segunda vez tinha sido boa demais para aproveitar só com a Taís. Então, começou a sair mais com a banda, cheia de solteiros, onde vasculhava o Guanabara, Cabaret, La Bodeguita. Se apavorou quando encontrou a primeira guria de mais de vinte, Amanda, dona de sorriso e quadris espetaculares. Decepcionou-se quando o verbo que terminava o conjunto ficar-transar não era ligar no dia seguinte, e sim esquecer, fingir que nada aconteceu.

Chorou, fumou, bebeu a ponto de sair carregado do Cotiporã, comprometeu os estudos e começou a escrever. Suas letras começaram a ser aproveitadas na banda, que deixou o rock alegre de AC/DC e Stones pra chegar no masoquista de Smiths, Radiohead, Joy Division. Lágrimas do Asfalto, sua primeira música, tinha um refrão de pouca rima e acabou não rendendo mais do que três ensaios e um show. Mesma coisa com Louco Amor, tão ruim que o dono do bar sugeriu que cantassem em inglês pra parecer mais “bonito”. Dezembro já tinha chegado, o curso de revisão no Unificado não rendia muita coisa, a irmã já dizia que ele tinha de trabalhar pra não ficar sem fazer nada no ano seguinte. Até que a Amanda ligou. Disse que tinha visto o show da banda dos amigos na quinta-feira e queria saber se aquela música Fora de Controle era pra ela. Marcou um encontro na Lancheria do Parque, onde disse ter sido injusta, que não queria ser um peso na vida dele e que ele deveria ligar depois do vestibular. Ficou claro pra João que ela queria um rapaz de faculdade, não um adolescente que chorava depois de uma foda. Ele se dedicou muito aos estudos nos últimos quinze dias, até terminou de ler A Rosa do Povo. Fez as provas com o coração na boca, ficou com ela na sexta-feira seguinte, depois viu o listão e soube que tinha ficado de primeiro suplente, passaram 50, ele era o 51º. A irmã passou em 14º em Publicidade, primeiro semestre, alegria geral na casa. Os pais garantiam que o carro sairia, mas lá por abril, quando acabavam as prestações do Palio. Amanda transou com ele mais uma vez, na sua casa, aproveitando que os pais saíram pra comemorar o aniversário de casamento. João se via extasiado, parecia ter garantido tudo o que queria em poucos dias, namorada, carro, a faculdade só dependia da desistência de um, certamente um riquinho que ia preferir estudar na PUC. Tudo parecia bem.

Menos a banda. Edu, o baixista, bebia demais e às vezes nem chegava aos ensaios. Quando chegava em casa, não saía do quarto, a mãe chorava pela ausência do pai, que estava no Rio tratando de negócios provavelmente acompanhado da amante, a irmã mais nova saía quase todos os dias com as amigas e brigava na rua quando chamavam ela de prostituta. Num dia de show, o rapaz teve que ser tirado de casa às seis da tarde, quase em estado de coma alcoólico. Ao lado da cama, duas garrafas de Walesa vazias, alguns limões e uma forma de gelo, metade derretido. Depois dessa foi internado, passando o resto dos seus dezenove anos numa clínica de intoxicação, com o tratamento quase interrompido por uma denúncia de porte de drogas. A situação de Edu abalou a banda, pois ainda que o baixo não fosse tão importante, as músicas depressivas que tocavam faziam lembrar da situação, o próprio Fernando, que era guitarra solo e vocal, parou um dos shows pra chorar no camarim.

Numa noite, saindo de um desses shows, Ricardo, o baterista, pegou o Palio Fire pra dirigir. Todos estavam bêbados. Eles tinham de ir pra zona norte, então Rick, como era chamado, pegou a Castelo Branco em altíssima velocidade. A 120 por hora, com João, Fernando, Amanda e o guitarrista base Vítor na carona. A polícia viu a velocidade do bólido e tocou a sirene. Rick, com três doses de uísque e (detectado posteriormente em exames) 50g de cocaína na cabeça, apavorou-se e jogou o carro no canteiro, onde caiu. Completamente alucinado, acelerou até sair do canteiro para a pista de contramão. Acelerou estupidamente, até encontrar a frente um Corsa Sedan vindo da praia com uma família, duas crianças atrás. Perda total dos dois carros. O caroneiro Vítor lançado a 20 metros de distância, morto após quebrar a cabeça no vidro, sem o cinto de segurança. João preso nas ferragens. Amanda com uma barra de ferro lhe trespassando o braço esquerdo, tal como a perna de Fernando. Rick e os dois da frente do Corsa, marido e mulher, morreriam no hospital. Melhor nem dizer o que houve com as crianças.

Somente cinco anos depois do ocorrido João voltou a um hospital, para visitar o seu filho Eduardo, nascido após uma cesária no ventre de Amanda. Ainda não tinham casado, mas já moravam juntos, num apartamento de três peças no Bom Fim, que Amanda alugou depois de dois anos de emprego fixo como dentista no hospital Mãe de Deus. João encaminhava a conclusão do curso de arquitetura, tinha parado no ano anterior pra trabalhar. Fernando, que manca até hoje por causa do acidente, foi pra Curitiba com uma dessas novas bandas de rock que estoura nas rádios, ganha muito bem, tanto que parou de estudar, pra desespero do pai. Preferem morar perto dos lugares onde trabalham, bem como só vão pro litoral de ônibus. João visita sempre Edu, que decidiu parar de tentar a morte depois da tragédia ocorrida com os amigos, pois sabe que ela chegaria mesmo se continuasse procurando. A mãe de João decidiu dar de presente para Juliano, o filho mais novo, que recém completara 18 anos, uma presente diferente, apesar da insistência dele em ter um carro bacana, com vidros pretos e rodas rebaixadas, pra se mostrar pras gurias. Convenceram-no do contrário. Não poderiam saber se Juliano não repetiria a história de João, oferecendo sua vida ao beijo da morte. Chega de apressar as coisas. Porque não uma bateria?


luís felipe posted at 02:00

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