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sábado, fevereiro 14, 2004

atualizarei essa coisa só dia 26 agora.

fiquem com um texto meu, do ano passado. Abraços.

DEU NO JORNAL:
O nobre engenheiro Pedro Tedesco Silber foi considerado pela comissão estadual de engenharia o Engenheiro do Ano. O prêmio será entregue hoje, às 21h, no Salão de Atos da PUCRS.

Não quero armas, nem amigos. Não quero que amanhã me digam que eu segui alguma tendência maligna que faça todo o meu trabalho de anos ruir em segundos, décimos ou centésimos ou milésimos de. Chega de jogar tudo fora: agora serei feliz. Bêbado, mas feliz. Nos últimos 16 anos não quis almejar a felicidade. Desisti do violão, minha carreira promissora como piloto da Aeronáutica foi abortada por alguns testes malfadados sobre pressão e continentalidade. Decidi então deixar de ser feliz, me atirei nos livros de matemática e decidi que se não ia ser aviador, pelo menos construiria prédios que me levassem ao céu, e lindos o suficiente para fazer chorar aqueles que queriam vê-los bombardeados nesse país sem sombra de guerra. Casei, tive filhos, tomei porres gigantescos, fui em festas da high-society. Enfim, se não pude viver, passei a ser para me tratarem como ser. E agora a minha fase de ser chegou no seu ápice – com esse prêmio, deixarei de joelhos as empreiteiras. Os abutres que diziam que eu jamais seria nada por ter nascido um nada agora me tratarão como tudo. Meus professores, esses sim, terei prazer em deixa-los com inveja por toda a eternidade – todos eles são malditos seres eternamente frustrados quando não formam idiotas tão frustrados como eles. Eles adoram os concursos para tribunais e repartições públicas, pois sabem que ali estão milhares de possíveis médicos, promissores jornalistas, ávidos pesquisadores, que por algum fator de derrota acabam por subjugar seus sonhos. Esse fator de derrota é a vida desses professores. Ao menos deles. Um dia posso ser um também.
Mas, voltando ao assunto, serei feliz. Descobrirei que a felicidade é a de Deus, sim, mas com Lúcifer no meio. Uma pimenta, uma mancha no branco dos véus. Os filósofos dirão que isso é uma grande bobagem, uma pieguice extrema; os religiosos me ridicularizarão como pagão e ignorante. Não me importa se Shakespeare ou Homero ou Gilgamesh dizem isso desde o princípio da humanidade, direi de novo, pois sou um sugador, portanto humano: a vida sem a morte não é e nunca foi vida. Tem de existir a antítese para tudo ficar legal. Para ter graça. A Igreja Católica só é a Igreja Católica porque inventou o inferno. Eles nunca foram os enviados de Deus; eles são os criadores do inferno, uma obra ainda maior, pois ninguém ainda conseguiu construir tal antítese de Deus. Alguém por essa parte pode estar achando que vou chegar na tribuna amanhã e dizer “muito obrigado, mas recuso esse prêmio. Esse prêmio é para vocês, malditos abutres, que amanhã farão caveira de mim nos simpósios, que só pensam em vocês e nos interesses de vocês para dar esses prêmios que nada mais são do que instrumentos de marketing. Vocês querem é vender cimento às minhas custas. Aqui pra vocês, BANDIDOS!” Eu poderia dizer isso. Ia ser legal.
Mas não vou. Não vou porque além de ser piegas, é heroísmo. Os garotos da faculdade de Engenharia iam ficar meus fãs, eu ia dar entrevistas e aliciadores de menores iam manter suas posições às minhas custas. Na verdade, é um círculo vicioso – o bendito vai para um lado e tem tais objetivos, mas o maldito, ainda que de objetivos opostos, vai para o mesmo lado. Só que de formas diferentes. A vida é cheia de lados, portanto não cometerei o maniqueísmo de dizer sim ou não. Não direi nada disso. Não direi? Poderia não dizer. Mas ao não dizer estaria dizendo não, e meu objetivo é não responder. É deixar a dúvida, a subjetividade, o mote de tudo e ao mesmo tempo tão comum que torna-se nada. Agora descobri onde está Deus. É na subjetividade, onipresente em todos os homens e onipotente sobre eles. Deus é subjetivo, Ele não é ou está. Ele nem pode ser chamado de Ele, nem de ele. Porque esse pronome remete a um sujeito, que não existe. Deus está no meio de todas as palavras que fazem o bem, e a antítese está nas palavras que representam o mal. Deus é Deus por que tem a maior das antíteses. Senão seria Baco, Júpiter, Atena.
Então não direi sim nem não, mas ao mesmo tempo alguma coisa será dita. Nessa parte me lembro dos cogumelos. Porquê? Ora, os cogumelos são fungos, não tem raiz nem folha nem caule. Eles simplesmente existem e se reproduzem, como princípios básicos. Eles não tem início nem fim, são sim um apanhado de hifas – que nem vasculares são – dentro de um corpo com algumas células ordenadas com forma de bomba H. Já a pitangueira tem início, meio e fim, todo mundo sabe onde começa, por onde nasce, como termina, se reproduz. Entretanto, um chá de pitangueira alucina? E o de cogumelo? Porque o chá de cogumelo alucina? Eu tenho uma explicação: porque como eles não tem nada de onde tirar nada, não tem seiva ou tubérculo ou vasos do caule, nada por onde alguma coisa flua por algum motivo e com algum sentido. A energia flui assim, enlouquecidamente, dispersa, vaga, pois o sentido é um só, o de viver. Isso permite e incentiva a criatividade dos fluidos, que quando imersos e reproduzidos em água fervente, ou matam – despreparo dos axônios para admitir tal nível de sabedoria? – ou alucinam, fazendo a pessoa não saber o que está vendo. Quem sabe não é isso que falta à humanidade, que haja somente um objetivo e um sentido? Assim a imaginação pode fluir como flui a imaginação dos íons, elétrons, prótons, nêutrons, átomos, moléculas, e tudo isso na física que nada constitui senão o que já sabemos pelo lado de fora (se um sonho de horas dura 15 segundos, porque distãncias de anos-luz não podem ser na verdade nanômetros?) mas somos ignorantes e pretensiosos demais para descobrir pelo mínimo.
Portanto, meu texto será como um cogumelo. Direi uma frase, e partindo daí farei todo o meu discurso. A frase é a seguinte:

“ Se das menores coisas faz-se o mundo e nós mesmos, amaremos o próximo como a nós mesmos na mesma proporção em que damos valor às coisas simples.”

(Longa pausa. Ele toma um café e vai tocar algumas notas no violão. Sai uma música híbrida, mas de grande beleza e magnitude. Algo quase celestial.)

E se não for o fim? (Ele muda o tom do violão e passa a cantar. Um amigo seu chega e canta um pouco também, tocando notas com uma gaita de boca. Os dois conversam por longos instantes, e saem. Depois ele volta, mas o amigo também, para buscar a capa de chuva. Desta vez a despedida é rápida.)

(Ele toca até acabar o barulho incessante do temporal. Então pára.)





luís felipe posted at 03:42

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