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domingo, fevereiro 01, 2004

Era uma daquelas gurias que entrou na faculdade querendo dar pra todo mundo. Quando os amigos menos esperavam, lá estava ela, agarrada em beijos e abraços com as pessoas mais diversas de todos os cantos do campus. Tinha certa habilidade em fazer isso, tanto que nunca foi chamada de vagabunda, até porque era invejada pelas mulheres, desejada pelos homens. Tinha nos seus "favoritos" do Internet Explorer um site que ensinava a mostrar a WebCam nas salas de bate-papo. "Tá bom, mãe, vou me cuidar", dizia uma das irmãs mais novas dela pra mãe, sempre preocupada com os contatos da filha, que nunca saía do computador. Num belo dia de inverno, a irmã ausente de casa, resolveu procurar em chats um desses caras que adoram se exibir numa câmera, daqueles rapazes solitários e tímidos que passam horas paquerando por um teclado. Numa dessas salas encontrou o ex-namorado.
Largara o ex porque não suportava a sua arrogância e sua forma bruta de comê-la. Transava com ele quase sempre à força, nunca chegou nem perto do orgasmo e isso pouco o importava. Eu fui a pessoa que ouvi todos esses casos dela dos 16 até os 20, jamais ouvi outra vagabunda que não fosse ela. Por algum motivo inexplicável eu adorava ouvi-la. De repente pelo masoquismo de parecer um varão completamente impotente ao lado dela, pois muitos homens já passaram por aquela boca e eu nunca seria um deles. Muitas vezes fantasiei em frias noites que transava com ela da forma que ela queria, com massagens, carinhos nas coxas e beijos no pescoço, mas enquanto cansava meus dedos na cama ela estava agarrada com um louro de olhos claros qualquer pela noite da capital.
Pois bem, quando ela encontrou o ex-namorado tirando a roupa numa webcam, aquela pessoa tão insuportável, grotesca e rude tomou outra forma. A princípio, sentiu nojo e desligou o computador, indo pra cama com vontade de vomitar. Depois, deitada na cama, lembrou daqueles músculos e dos pêlos do peito, pensou duas vezes e voltou a olhar sua câmera. De fato, ele era bonito, e estava se exibindo de uma forma incrivelmente delicada. Fazia poses quase artísticas, mostrava detalhes do seu ventre duro pelos exercícios, mostrava as costas musculosas e marcadas por cravos. Mordeu os lábios. Bateu um tesão por ele aquela hora. Decidiu ligar pra ele e dizer que era a ex. Melhor não. Marcou um encontro para o dia seguinte, na Usina.
Ele foi, e ela o deixou esperando. Por uns quinze minutos. Queria testar a sua ansiedade, que era muita, dois minutos de atraso e ele começou a andar em círculos. Resolveu pregar uma peça, ligou pra ele. "Oi, aqui é a Daiane, tudo bom, onde tu tá?" "Ah, que coisa, eu tô bem aqui no terraço. Vou aí te ver então. Beijos." Ela descia as escadas rindo da molecagem e imaginando a cara dele ao desligar o telefone, pois sabia que ele nunca ia descobrir que a guria do chat era a ex namorada. Foi até o bar flutuante, onde ele combinou de estar. Qual não foi a surpresa quando ela, no caminho, achou um dos vários guris com quem tinha ficado naquele semestre. O guri mais atraente, simpático, que sabia sorrir e tinha uma voz que remetia a homem, mas não exatamente o homem dominador, o homem meigo, amável, que ela procurou no ex e não encontrou jamais. Sentiu-se uma garotinha com um pirulito na mão nos dois minutos em que disse "Oi" "Tudo" "Eu vim ver a Bienal" "Vai pra Cidade Baixa hoje?" "Nos vemos lá então" "Beijos" e ele disse "E aí" "Tudo bom?" "Que veio fazer aqui?" "Legal, eu vim tomar um chimas com amigos" "Acho que vou, mas antes vou tomar banho" "Beijos, guria."
Deu conta do momento terno que tinha passado quando olhou pro namorado, de camisa justa e colar tribal no pescoço, apavorado pois esperava uma guria que jamais viria e que não podia ver a ex pra não pegar mal. Andou um, dois, três passos em direção ao bar flutuante. Olhou o ex andando em círculos. Deu mais um passo. Ele não a viu. Enfim, caminhou até ele e deu um oi. Ele tentou mostrar calma e controle da situação. "Oi, tudo bom?" "Não esperava te ver por aqui" "Acho que vou comprar um livro naquela biblioteca" "Vais esperar o pôr do sol? É lindo" e outras frases curtas com respostas sucintas resumiram o reencontro com o homem que tinha largado. Não doeu. Foi embora sem dizer pra ele que a guria da webcam era ela. Como uma pequena vingança pelas vezes que entrou e saiu do seu corpo sem permissão, fez o seu personagem não comparecer ao encontro. O que o deixou revoltado com todo o mundo externo na semana seguinte - menos com ela, pois ela foi solidária com ele naquele triste e solitário momento.
No dia seguinte fui à Cidade Baixa com ela, que me contou toda essa história. Naquele mesmo dia, o homem meigo que a encantara não compreendera nenhuma das indiretas que ela deu sobre a casa dele e foi embora cedo, pois tinha prova no dia seguinte. Por quase uma hora ela chorou no meu ombro a estupidez de todos os homens e a paixão que não admitia pelo homem meigo. Eu ouvi tudo atentamente e fui embora quando percebi que estava vivendo mais a vida dela que a minha. Saturado de ouvir maravilhas de outros rapazes, voltei pra casa pra fumar e escrever, e na cama vazia, lembrei que tinha pedido a `Papai Noel pra não ser ciumento. Parece que meu pedido só virá ano que vem.


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então, esse texto eu acabei de escrever, outra daquelas idéias que martelam na tua cabeça e tem de sair de algum jeito. É bom escrever relaxado...o título é o mesmo título do post, "Amores platônicos doem".


luís felipe posted at 05:38

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